sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

De filhos

Quem me conhece sabe que sempre sustentamos, meu marido e eu, uma postura bastante crítica sobre ter filhos. Enquanto nossos amigos, colegas e irmãos babavam em seus rebentos, nós nos mantivemos distantes. Quando inquiridos sobre o tema dizíamos que não queríamos, simplesmente isso. Não era nossa praia, não fazia parte de nossos planos, legal termos sobrinhos, blábláblá.
Há cerca de três anos, com a vida mais estabilizada financeiramente e o casamento já beirando os sete anos, começamos a “pensar” no assunto. Do ano passado para cá, tomamos nossa decisão, a mais louca, pirada decisão: queremos um filho. Minhas amigas acharam engraçada a ideia, já que eu nunca havia sido nenhuma entusiasta do assunto. Mas me entenderam, como toda mulher entende outra mulher e explicaram o fenômeno: tinha chegado a idade, o tal do relógio biológico havia dado suas badaladas.
Então, para surpresa maior da população a nossa volta, decidimos que nosso filho será adotado e que poderá chegar com até dois anos de idade. Espanto geral! Ouvi muita pergunta idiota, mas, também, muitas exclamações de felicidade, de apoio.
O início é, realmente, o mais complicado. Ninguém espera que duas pessoas saudáveis prefiram adotar. A adoção, na concepção de muitos, ainda é para quem “não pode” ter filhos biológicos. Tive reações as mais diversas, inclusive na família. Diante dos olhares incrédulos e até debochados de alguns, tem que se ter a decisão muito bem fundamentada em nossa mente. Como, para nós, nosso desejo estava muito claro e evidente, não tivemos receios de enfrentar a situação família e mostrar a ela que precisávamos de todos ao nosso lado, pois nosso filho também seria sobrinho, neto, primo. Agora, já sei que meu filho terá muitos abraços, carinho, amor, mimos e tietagem das tias corujas. Terá avôs atenciosos e primos para brincar. E já antevejo em seu quarto um mural cheio de fotos com toda a família em suas festas de aniversário.
Mas, voltemos às perguntas:
Primeira pergunta idiota: Mas por que, você não pode ter?
Segunda pergunta idiota: Mas você não quer um seu?
Terceira pergunta idiota: Mas você não vai senti-lo no teu ventre, não vai amamentar?
As perguntas estão, sempre, relacionadas a mim: você isso, você aquilo. Por que não me perguntam, então, se estou pronta para cuidar de uma criança que provavemente virá com problemas de desnutrição, maus tratos, abandono. Todos, mas todos mesmo, que me questionaram apontaram o que considero um grande defeito quando se fala em filhos: a idealização, os desejos dos pais e não as necessidades do filho.
Minha resposta sempre foi um sorriso e se eu percebesse que valeria a pena explicar nossa decisão, então eu explicava, se não sorria do mesmo jeito e respondia idiotamente.
Esclarecer sentimentos, o porquê da questão, sempre foi um desafio para o ser humano, e não serei eu a conseguir tal proeza assim, de uma hora para outra. Só sei que quando duas pessoas adultas, parceiras em tudo na vida, cúmplices, amigas, amantes, que estão juntas a bem quatorze anos decidem que vão adotar uma criança, que vão dar um lar, uma família, oportunidades, amor infinito e mostrar o caminho do bem para ela, não tem jeito. Elas vão mesmo adotar.
Já demos entrada nos papéis. Embora a burocracia ainda seja grande, concordo com as entrevistas e pareceres, pois o que está em jogo não é o desejo dos pais, mas a necessidade da criança. Não sei quando teremos aquele que amaremos e chamaremos de filho, mas já sonhamos com sua chegada, já planejamos seu espaço, já preparamos, em nossos corações, seu canto seguro.
A vida é mesmo essa loucura e por amar estar viva é que não quero perder nem um tantinho dessa magia toda que nos faz realizarmos sonhos que antes não tínhamos, de extrapolarmos as expectativas sobre nós mesmos. Creio que crescer também é isso, pensar que se pode ser mais e melhor tendo outros a nossa volta.


E serei mãe, eu que dizia aos quatro ventos que nunca teria filhos. Quer coisa mais “punk”?

9 comentários:

Caren diLima disse...

Bem, nesta tua história eu sempre fiz parte do rol dos que te apoiam! Eu tenho uma filhota biológica que amo incondicionalmente, e faço o que posso pelo seu bem-estar (tu sabes), e também fui criticada pela decisão do meu marido fazer vasectomia. A questão mais importante nesta história tu já levantaste: "Só sei que quando duas pessoas adultas, parceiras em tudo na vida, cúmplices, amigas, amantes, que estão juntas a bem quatorze anos decidem que vão adotar uma criança (ou fazer uma vasectomia, que é o meu caso) que vão dar um lar, uma família, oportunidades, amor infinito e mostrar o caminho do bem para ela, não tem jeito. Elas vão mesmo adotar (ou vão mesmo ter apenas um filho!!)."

É isso aí!! Um grande beijo e boa sorte!!!!

Jane disse...

Ane, que bela iniciativa a sua, sou mãe biológica de três filhos e afirmo de coração, o que faz você amar um filho, não é o momento da concepção e muito menos o fato de carregá-lo nove meses em sua barriga. O que faz você amar um filho são os cuidados que temos com eles, a esperança que temos em nós de sermos boas mães e contribuirmos para a formação de um ser humano de bem, enfim a convivência construída diariamente.
Trabalhei por quatro anos em um abrigo de crianças abandonadas e o maior sonho daquelas crianças era ter uma família. Quando tive gêmeos me apavorei e fiz uma laqueadura de trompas, mas depois de um tempo voltou a vontade de ter mais filhos (diferente de você acho que já nasci com meu relógio biológico batendo), aí era tarde, mas não desisti da idéia de adotar pelo menos mais um, só que aqui em casa nem todos pensam como eu, mas não tenho pressa, quando chegar a hora sei que vai acontecer.
Só para não me estender demais aqui, sei que ainda é uma burocracia o caminho para a adoção em nosso país, mas tem via mais fáceis (legais) de se encurtar essa fila, se quiseres posso te mostrar alguns caminhos, mande um e-mail: janemacedo.poa@hotmail.com.
Um abraço.

Laura disse...

Minha amiga querida!
Não existem explicações humanas para o que se destina as nossas vidas. Acredito que vocês apenas abriram espaço para se concretizar o que Deus já havia traçado. Amar é um ato indescritível. Que a criança seja para vocês o mesmo que serão para ela: uma oportunidade de aperfeiçoamento moral e pessoal. Amem-se sempre. Torço pela felicidade de vocês. Beijão.

Vanusa disse...

Ane querida;

O filho adotivo nasce no coração, existe toda uma preparação para conseguir concretizar esse sonho, são preenchidas papeladas, a mulher, o casal tem que ficar aguardando ser entrevistado, passar por todo o processo e no fim serem agraciados com a criança! Muitas coisas passam pela cabeça de quem vai adotar( suponho), e o casal vai aprendendo a amar e lutar por esse filho, que muito embora ainda não exista em seus braços, já tá lá no coração...
Bem, mais o que eu gostaria de ressaltar no meu ponto de vista, um filho adotivo, muitas vezes e até mais amado do que um biológico( no caso de pais que só tem os adotivos), pois foi algo muito pensado, ponderado, desejado, aguardado, quero dizer, muitas vezes o casal que tem o filho biológico é "pego com a surpresa da chegada do filho" ou seja, vai amá-lo, muito desde a notícia ou com a chegada, mas as vezes é algo "inesperado" e já um filho adotivo, é algo que não é da noite pro dia "não acontece", há todo um processo, e por mais que hoje em dia esteja simplificado o processo de adoção, ainda assim, existe todo um trâmite.
Uma vez vi no Globo Repórter uma matéria sobre filhos adotivos, e foi mostrada uma pesquisa em que foi constatado que em casas de filhos e pais adotivos, havia um amor maior, digo, parecia que havia menos cobrança e mais tolerância...achei que fazia sentido...
Mas na verdade somente quando tu fores mãe é que saberás o verdadeiro sentido da palavra "amor", é algo inexplicável.
Parabéns a vocês pela linda maneira de acolher com amor a um um filho.
Vou adorar te ver de mamãe, muito doidinhaaaaaaaaaaaaaa, muitas fraldas, chupetas, isso na verdade é maravilhoso! Aproveita muito todas as etapas desse momento ou seja, desse nascimento, porque desde de o momento da tomada de decisão já nasceu.


Parabénssss, parabénssss, parabénssss, obrigada por compartilhar comigo tua alegria.


Beijos " mamãe Ane"!!!

Vanusa Silva
Téc. Segurança do Trabalho - TST 8298
51 9984.8004
Canoas/RS

Nádua Taylor disse...

Adorei teu texto!!!!! Também estou me preparando para ver se realmente terei ou não um filho!!! Que loucura, né!?

Beijos e me manda noticias
Nádua Taylor
English Teacher of YMCA - RS/ Brazil

Anônimo disse...

Olá Ane,

Sem palavras... fiquei emocionada ao ler este texto!
Apenas quero lhe dizer:
Que Deus abençoe vocês
Um grande beijo com muito carinho

Vivi

Adriana Figueiredo disse...

Eu, mais que todos....., ameeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
besos
estou esperando mais ansiosa que tu.....
besos

jane disse...

Ane, lembras que eu comentei que quando chegasse a hora iria acontecer, pois é, a iniciativa partiu de meu marido com toda essa tragédia do Haiti, ele sugeriu que adotássemos uma criança de lá, fui correndo para a Internet e fiz a inscrição, espero que de certo, mas se não der, acho que já houve um movimento para se falar sobre adoção, assunto que antes ele nem tocava. Sei das crianças que temos aqui precisando, mas de uma forma ou outra elas recebem um amparo, me doeu ver aquelas perambulando pelas ruas, com sede, sem ter o que comer. Agora entrego na mão de Deus... Bjos.

Ane Patrícia de Mira disse...

Jane, espero que tua caminhada tenha só flores. Realmente, chegar ao "quero" não é uma decisão fácil e nem deve ser porque engloba muitas várias. Mas creio que quando se chega ao desejo, todos os possíveis percalços passam a ser irrelevantes.

Abraços.