quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Dias de ócio com prazo de validade

Férias, benditas, merecidas e esperadas férias!

A maior parte das pessoas com a qual convivo, que trabalha em instituições de ensino, está se deleitando com seus dias de ócio. Nas redes sociais, fico entre curtir e comentar as várias fotos de momentos nas belas praias gaúchas e catarinenses, junto aos amigos e família, todos com largos sorrisos nos rostos. Pois é, trabalhamos tanto, suamos tanto durante o ano que esses dias só podem ser mesmo de festas.

E, embora eu não esteja viajando, também tenho descansado, sem horário pra comer, dormir, acordar, ler, rir, assistir a filmes, enfim, relaxando. Porém, assim como o sol surge todos os dias, chegará o momento de ajustar o despertador para as 6h da manhã, chegará a hora de tirar o uniforme do armário, dar uma passadinha pra fazer bonito no primeiro dia, chegará o tempo de encher as bolsas e mochilas de materiais, de sujar novamente as mãos no pó do giz, ou nas tintas coloridas dos pequenos, de pendurar o crachá no pescoço e trabalhar.

Falando assim, até parece o tão profetizado fim do mundo em 2012, porém o que podemos e devemos esperar são dias de compromisso, sim, de disciplina com horários e prazos, também, porém, de encantos, momentos de novas descobertas, de novos rostos e corações nos esperando, sentados ou em pé, tanto faz, mas estarão lá, todos no horário marcado, todos esperando...
Para alguns, o magistério se tornou um mal necessário. Aos alunos, uma obrigação imposta pelo governo e os pais, aos professores uma necessidade econômica. Entretanto, para muitos e muitos mesmo, é a oportunidade de conciliar sonho com realidade, esperança com pé no chão, oportunidade com empreendedorismo, conhecimento com vontade de saber.

Embora, todos adorem as férias, principalmente porque significa missão cumprida no ano que passou, há um momento que cansa, há um dia em que a gente acorda querendo mais do que sol e mar, não que não o desejemos mais, mas parece que falta algo, que os dias estão ficando longos demais. Os sonhos mudam, outras faces entram neles, outros ambientes, outras vontades. Acordamos, enfim, sabendo que chegou a hora de um recomeço-continuação, pois tudo é processo. Chegou a hora de voltar ao nosso lugar e de descobrir, de novo, como somos felizes com o que escolhemos para ser, com o que fazemos, com o que proporcionamos a outros fazerem, felizes com viver no mundo do conhecimento, do saber, da ciência, da cultura, do valor à estética e ao questionamento.

Tine o despertador, voltamos. Abraços e sorrisos dos colegas, entrega novamente de nossas vidas à educação.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ganhadora do sorteio de ano novo

De acordo com a Loteria Federal do dia 11/01, a ganhadora da vez é Laura Almeida.

Parabéns guria, entrou nos 45 do segundo tempo e fez teu gol.

O número sorteado corresponde ao quinto prêmio, ok. Conferir em http://federal.resultadoloteria.org/

Números para o sorteio

Pessoal, aqui vai os números com que cada um está concorrendo no sorteio de ano novo:

vanypaulino@gmail.com: 11
Marion Creutzberg: 12
Fátima Pincol: 13
Guilherme Pinheiro: 14
Lisy Brinhosa: 15
Verônica Kraemer: 16
Ana Paula Mocellin: 17
Sueli: 18
Cristine Galindo: 19
Luciana: 21
Jô Amaral: 22
Luciana Samaniego: 23
Tainah Gil: 24
Gabriel Rolla: 25
Giuliana Schneider: 26
Angélica Foster: 27
Laura Almeida: 28

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Quando chega o fim do ano...

Quando o ano ameaça realmente acabar, temos a tendência de ficarmos mais emotivos, reflexivos, a pensarmos mais na vida, buscando nela sua essência, sem todos os acessórios que lutamos tanto para alcançar durante os meses que transcorreram.

É fácil, agora, olhar para trás e ver como fizemos burradas, como demos mancadas, quanta coisa idiota dissemos. O difícil foi encontrar humildade para pedir perdão em todas as vezes em que assim procedemos.

É confortador, agora, decidir que no próximo ano amaremos mais, curtiremos mais nossos filhos, pararemos de fumar, de beber, ou seja lá que outro vício se tenha; enche a alma de tranquilidade saber que teremos mais uma chance, mais 365 dias, ou melhor 366 em 2012, para acertarmos, para sermos felizes, para não incomodarmos, para nos esforçarmos mais. Mas, não podemos esquecer que as marcas de nossas ações e palavras não se apagam com os fogos de artifício da meia noite do dia primeiro de janeiro. Elas ainda estão lá e, não raras vezes, são as responsáveis por outros não poderem sorrir com a virada do ano.

Sei que essa é uma época para festejar, e festejo. É uma época para refletir, e reflito. É uma época para contabilizar os erros, e o faço. Porém, muito do que se apregoa nessa época não passa de sonho. E é bom sonhar, mas é muito melhor ter os dois pés no chão. Olhar para o céu, sabendo que coisas boas podem acontecer, mas que metade delas vem porque eu soube plantá-las antes. E que se as pessoas ao meu redor são felizes e eu sou feliz, é porque minhas atitudes e palavras não trataram de ferir ninguém. E se o fizeram, eu tive a humildade de pedir perdão.

Ano novo cheio de coisas novas e velhas, cheio de sonhos e realizações deles, cheio do que importa, cheio de gente, de sorrisos e se lágrimas, que sejam de felicidade. É o que eu desejo a todos: família (meu baluarte), amigos (alguns vão, alguns surgem, outros permanecem), colegas (com quem formo uma teia irregular, mas segura), chefes (ah, os chefes!), alunos (motivo de eu ser a professora que sou) e seguidores do blog (vamos compartilhar mais em 2012).



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sorteio de Ano Novo!

Pessoal,
Mais um sorteio para agitar o blog. O livro da vez é "Água para Elefantes". Não sei se já leram, mas para quem curte história romântica, é uma ótima pedida. Parece um filme.
Para participar? Se já for membro, é só postar nos comentários que quer o livro, se não for membro, cadastre-se como tal e depois poste o comentário.
Sorteio dia 11/01/2012, pela Loteria Federal.
Buena suerte muchachos y muchachas!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

PARABÉNS GANHADOR DO PRIMEIRO SORTEIO DO BLOG

Gente,

De acordo com os números indicados para o sorteio, não pude fazer o mesmo com o primeiro número da Loteria Federal, pois não havia ninguém com tal numeração (últimos dígitos). Por eliminação, acabei utilizando somente o 5° prêmio, com final 27.
O grande ganhador deste sorteio foi

GABRIEL ROLLA

PARABÉNS!!!!

Outros sorteio virão, a cada dat comemorativa ou quando me der na louca.

Para conferência, acessar: www1.caixa.gov.br/loterias/loterias/federal/federal_resultado.asp
Extração n° 04596

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Força Figo

Ninguém gosta de vivenciar uma situação de doença na família. É incômodo, perturbador e quando se trata de alguém jovem e de uma doença-surpresa, dessas que não avisam que andam a espreita, dessas que, de repente, dão as caras e mudam toda nossa perspectiva sobre a vida, é pior ainda.
Estamos, minha família, passando por mais um desses episódios que envolvem hospital, incertezas, abalo emocional, orações. Depois do câncer de meu pai, meu cunhado, marido de minha irmã do meio, com apenas 33 anos, está hospitalizado com uma síndrome rara que paralisa os membros inferiores. Ele, um desses caras-saúde, que não fuma, não bebe e joga futebol semanalmente, ele que adora seu trabalho, é motorista de ônibus urbano, que ama minha irmã e se derrete todo pela minha sobrinha de 9 anos, ele que é o melhor amigo de seus irmãos e tem o riso mais fácil que conheço, está atrelado a uma cama de hospital e ficará lá por não menos de 20 dias.
Visitando-o no sábado, pude ter a certeza de que ele é muito mais forte do que eu. Sim, está fazendo a maior piada com a situação. Entre punções e injeções na barriga, encontra tempo para fazer graça de tudo. Nos divertiu durante a meia hora em que estivemos a seu lado e nos deixou mais tranquilos quanto a fé que tem. E isso tem sido evidenciado a cada rasteira que alguém de minha família tem levado: fé, muita fé no fato de que Deus está sabendo direitinho o porquê de tudo isso.
Tanto meu pai, quanto agora meu cunhado, não se rebelou, nem se questionou sobre o que aconteceu. Eles aceitam e fazem o seu melhor enquanto pessoas que sempre professaram fé incondicional em Deus. Nada do: eu te sigo, Tu fazes o que quero.
Em pouco tempo, pude me sentir feliz por fazer parte de uma família que extrapola as ligações de sangue, que se sente muito mais ligada pela certeza em um Deus amoroso e cuidadoso, que permite que sejamos humanos, sujeitos a problemas, doenças, fracassos, dores, mas que nesse turbilhão todo nos enche de muita paz, certeza em sua presença constante, em seu amor.
Desejo, de todo coração e oro por isso, que meu cunhado se recupere logo, que mantenha sua fé inabalável, seu sorriso confiante, sua alegria que faz dele o baixinho preferido da família.
Força Cris, Deus está contigo e tu sabes disso.
Obs: Figo é o apelido do cunha.


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Colegas: não dá para viver sem eles

Hoje, quero falar de pessoas especiais e embora não seja sobre alunos, tem tudo a ver com eles, apesar de não ser sobre família, faz-me sempre recordar dela. Hoje, vou falar sobre colegas.

Colegas são esses seres que entram na nossa vida sem convite, pois somos obrigados a conviver com eles. Não há escolha: ou aceitamos ou nos demitimos e como todos precisamos viver... abaixamos a cabeça e nos entregamos a todos eles, sem exceção, pois ela não existe.

No meio das relações profissionais, do bom dia, boa tarde, como vai, tudo bem, aparece aquele sorriso de boas vindas ao novato, inseguro e cheio de medos, mesmo entre a espuma da pasta de dente na hora da escovação, no banheiro atulhado de gente correndo entre um turno e outro.

Depois de um tempo, ou com alguns, de algumas horas, as conversas brotam naturais e um dia, num dia em que tudo parece dar errado, sentimos uma mão afagando nosso ombro e um ser, até então estranho, nos diz que vai dar tudo certo e não tanto suas palavras, mas muito mais sua atitude solidária traz o sol para perto de nós.

Já passei por várias instituições tanto de ensino quanto de comércio, há colegas que nunca mais vi e sei que não verei, há aqueles que se tornaram amigos e frequentam minha casa mesmo depois de não sermos mais colegas de trabalho, mas todos eles, independente da medida, fazem parte de quem sou.

Nesses estranhos tão íntimos é que encontramos coragem para olhar no espelho todos os dias e saber que fazemos parte de algo maior do que podemos imaginar. É com eles, com os colegas, que passamos a maior parte de nossos dias, e é deles, na maioria das vezes, que recebemos cuidado e atenção.

Foram colegas que enxugaram minhas lágrimas quando eu me sentia derrotada, foi de uma colega que recebi o abraço mais sensível de minha vida quando pensei em desistir, de colegas ouço as piadas e histórias mais hilariantes.

Tenho colegas que só de olhar para mim sabem que não estou bem. Tenho outras, abertas ao riso, que permitem que eu abra seus pacotes de biscoito e os coma antes delas, as donas.

Colegas que na carona para casa me divertem, me escutam, me aguentam, mesmo correndo perigo, mesmo tendo que gritar ‘olha o carro’, ‘cuidado’, ‘ainda bem que tenho seguro de vida’.

Tenho colegas que cuidam do meu lanche. Que me trazem guloseimas, que se dão ao trabalho de certificarem-se de que estou comendo bem.

Tenho colegas que me emprestam dinheiro para o almoço, pois às vezes eu esqueço. Outras, que me enchem de cheiros bons com seus Avons e Naturas.

Tenho colegas que abrem as portas das salas de aula quando não encontro minha chave em meio ao material que carrego, colegas que me sorriem entre os metais dos aparelhos, colegas que simplesmente suspiram e me olham.

Há também aqueles com abraço de urso, literalmente, pois quase me dobro ao meio para corresponder, mas que prefiro o desconforto momentâneo a perder a oportunidade de um carinho.

Tenho colegas anjos, colegas duendes, colegas fadas madrinhas e colegas mágicos. Todos eles, talvez sem ao menos se darem conta, colam os pedacinhos de minha existência com cola colorida. Costuram os rasgões, fazem remendos como numa colcha que espero lhes dê orgulho de olhar no final. São meus colegas, homens e mulheres, que têm me ensinado a perdoar, relevar, argumentar, esperar minha vez, me indignar, nunca menosprezar nada nem ninguém. Têm me mostrado que é possível o ser humano ser bom, apesar de ter atitudes más, pois sempre há um ângulo novo pelo qual olhar, há sempre um dia de cada vez, sempre um período depois do outro e que eles só duram cinquenta minutos. E que a vida é muito mais interessante quando compartilhada, mesmo que seja só nos vinte minutos do intervalo.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ainda ouço os passarinhos

Conversando com colegas e amigos, por vezes surge o tema violência urbana. São crianças que não podem mais brincar tranquilamente nas ruas, investimentos em grades para as janelas, cercas elétricas, alarmes e câmeras de segurança. Os idosos que não podem fazer a feira, visitar os amigos e parentes. Até podem, mas sozinhos nunca. E os adolescentes? Não podem mais sair de casa sem levar o celular, sem deixá-lo ligado mesmo no cinema, na balada, no encontro. São outros tempos, dizem, tempos dos condomínios fechados.

Segurança virou item de luxo e dane-se quem não pode pagar para ter sossego na hora de ir trabalhar, estudar ou mesmo dar uma voltinha descompromissada fora de casa. Por isso, quando conto que onde moro as crianças andam de bicicleta até tarde no verão, a maioria das casas não tem grades nas janelas, as roupas ficam tranquilas no varal, há casas sem nenhum tipo de cerca, a não ser as vivas e que da minha casa posso ver as máquinas de lavar dos vizinhos, posso ver suas tevês de LCD e mais algumas coisinhas, e que não se trata de nenhum condomínio fechado, o povo me olha sem acreditar.

Mas onde tu moras???

Não moro, eu brinco, me escondo. Na verdade, meu bairro é afastado do centro da cidade, beeemmmmm afastado, digamos. Durante nove anos nem ônibus passava no residencial, antes chamado de loteamento, ficou chique e mudou de status esse ano. Aqui, lugar que é longe de muita coisa como hospital (mas tem posto de saúde, creche e locadora de filmes), bancos, grandes supermercados, parques, grandes escolas, prefeitura, padarias (o dono do mercadinho que não me leia), aqui, onde ainda existem corujas, onde os beija-flores voam espanando as flores no meu jardim, onde passarinhos me acordam de manhã, se não passarinhos, as risadas da criançada brincando na rua, onde se pode usar o notebook na calçada, tomar chimarrão com os vizinhos quase no meio da rua, onde todo mundo conhece todo mundo pelo nome, dá pra se ter a impressão de que o mundo é maravilhoso.

Então, por essas e outras, continuo não abrindo mão do sossego, de poder sair tranquila de casa, de poder ver a vizinhança crescer, vizinhança infanto-juvenil. Não abro mão de viver tranquila, mesmo tendo que fazer uma viagem de quase quarenta minutos até meu trabalho, se eu for de ônibus, sendo esse no centro da cidade. Não há preço tão alto, nos dias de hoje, que não possa ser pago para se ter paz e quando é de graça melhor ainda.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Quer o novo livro da Martha Medeiros??? Então, siga-me.

Pois é. Acabei sucumbindo à moda dos sorteios nos blogs. Meu blog anda meio fraquinho de seguidores e eu, que detesto escrever pras paredes lerem (mania de professor, sempre querer ser ouvido, adorado, idolatrado, salve, salve), estou lançando a campanha: quer o novo livro da Martha Medeiros? Então, siga-me.
É fácil. Entra como seguidor e depois deixa teu comentário aqui nessa postagem, avisa que quer participar do sorteio. Não esquece do e-mail tá, pra eu poder avisar da vitória.
SORTEIO SERÁ NO DIA 13/10/2011. AINDA TEM UM TEMPINHO PRA PARTICIPAR!
SERÁ PELA LOTERIA FEDERAL.
ANOTE SEU NÚMERO:
Angélica Forster: 11
Bruna de Alarcon: 12
Prof. Nádia Valli: 13
Susi: 14
Mel: 15
Susan: 16
Emerson de Moura: 17
emersonmm_gd: 18
Léo: 19
Clarissa Selbach: 21
Giuliana Schneider: 22
Karina: 23
Augusto K.: 24
Guilherme: 25
Guilherme-Kills: 26
Gabriel Rolla: 27
.guilherme.: 28
Elisandra: 31
Chris Martins: 32
Rossana Masiero: 33
Gerusa: 34
Carol Matos: 35
Caren diLima: 37
Aline Tonin: 38
Wagner Bueno: 39
Marcelo Estigarribia: 41
Jane Macedo: 42
Lisiane Valente: 43
Adriana Müller: 44
Brunão: 45

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A mão que segura o pincel

Há muito que se sabe que ser professor extrapola o dar a matéria, o cumprir calendários, o transmitir conhecimento. Mas, trabalhando em todas as séries da educação básica, a que mais me surpreende, ainda, é a educação infantil.

Se alguém precisar saber o que é ser um professor na íntegra, olhe atentamente para as professoras da educação infantil, seja de que ano for. Elas não estão presas a apostilas e semanas de provas, nem precisam quantificar seus alunos. Elas não precisam fazer cara de paisagem, não precisam usar máscaras de mestres nisso ou naquilo, nem deixar de ser quem são como pessoas.
Elas são as professoras que cuidam, que fazem projetos sobre o que os alunos realmente querem aprender, exploram o mundo pelos olhos deles, levando-os a outros mundos, inclusive interplanetários.
Elas conseguem fazer com que seus alunos entrem dentro, literalmente, do corpo humano e em suas aulas podemos conviver pacificamente com os dinossauros, porque eles não estão em extinção.
Com as professoras da educação infantil o amor tem sabor de chocolate, e garrafas pet são desde aranhas teimosas a discos voadores.
Lá, na aula delas, naquelas salas enfeitadas e coloridas, cheias de letras-borboletas ziguezagueando pelo teto e as paredes, ouvem-se sons de brinquedos e brincadeiras. Lá, dá para deitar no chão, rezar antes de fazer o lanche sem sentir vergonha, pedir perdão e abraçar o amigo a cada palavra errada que se pronuncia. Lá, dá pra cantar bem alto sem mesmo saber a letra da música.
Nas aulas de educação infantil, com aquelas professoras-fadas-madrinhas, fazer xixi na roupa não dá motivo para a risada, mas para o cuidado. Chorar de mansinho a perda do brinquedo suscita o abraço. Lá dá para ser diferente, porque a diferença é exaltada e não rotulada.
Com essas cinderelas da educação, dá até para ganhar um colinho, fazer manha de vez em quando, dizer “não gosto”, “não quero”, “tô com sono” ou perguntar a todo instante “tá na hora do lanche?”.
As professoras da educação infantil são inteiras, porque educam com a alma e têm a percepção sagaz para entender quando é hora de fechar os olhos para o mundo apenas para fazer seu aluno feliz. Elas não se importam se a apresentação para os pais terminou, se um aluno não conseguiu fazer suas bolhas de sabão na hora certa, elas são capazes, e o fazem, ah se o fazem, de parar o tempo para dar a oportunidade de aqueles olhos pueris brilharem novamente.
Se crerem que estou aqui a me elogiar, ledo engano. Dou aulas na educação infantil, mas não chego nem perto da capacidade, da competência que observo todos os dias nas turmas de colegas dedicadas além de si mesmas, que realmente se comprometem com quem está ali, não só a frente delas, mas aos lados, atrás e muitas vezes, escondido embaixo das mesas.
Os primeiros anos escolares de uma criança não poderiam ser melhores do que estes, em que aprendem a olhar a escola como o lugar onde a mágica acontece, onde a fantasia se materializa, onde o conhecimento é a base para uma vida mais feliz e completa, porque as professoras da educação infantil são aquelas que não pintam pelo aluno, mas que seguram o pincel para que este não caia, para que o desenho seja concluído mesmo que seus nomes não assinem a obra prima.
Ainda não é o dia dos professores, mas depois de quase três anos convivendo com essas guerreiras, eu não poderia deixar de prestar-lhes minha homenagem. Muito do que sou como profissional aprendi com elas, principalmente a ver o mundo com mais cor.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Crônica do desespero

Se você, mesmo que por um ínfimo instante, já pensou que seu tempo neste mundo estava com prazo de validade vencido, leia esse texto até o fim, pois é sobre nós.

Hoje é segunda-feira e só isso já valeria meu mau humor, mas ele me deu uma rasteira, e se avolumou de uma forma quase palpável. Os que se aproximaram de mim, logo deram um jeito de se afastar, eu estava, de verdade, insuportável.

Levantei mais cedo que de costume, pois quebraria minha rotina com a necessidade de ir de ônibus até o trabalho. Nada contra o coletivo, ou as pessoas que dele fazem uso, mas eu odeio andar de ônibus. Antigamente, amava. Era uma viagem tranquila, em que pessoas conversavam sobre seu dia a dia, outros, os intimistas como eu, entravam em outra dimensão com seus fones de ouvido ou suas leituras recolhidas, mesmo que de um jornaleco qualquer. Era normal andar de ônibus, ir ao trabalho, à faculdade, para ver uma amiga. Hoje, é a sucursal do inferno. Em dia de chuva, então, tem-se a impressão de que não se chegará ao destino, pois será necessário descer antes.

Enquanto esperava no ponto, com a umidade a me empapar os cabelos e encharcar até os ossos, me acalmava com a ideia de fugir um pouco da responsabilidade de dirigir. Será legal, pensei. Vou poder ler em paz. Que vã esperança. Ao entrar no verdinho, me deparo, assim de cara, com um casal ouvindo uma música de péssimo gosto, sem fone nenhum, na caixa mesmo, para todos os passageiros apreciarem aquela mistura de vulgaridade e bateção de nada.

Sentei-me perto da janela, longe da balada improvisada, e tentei, juro, me acalmar. Peguei meu Carpinejar e comecei a ler. Consegui me afastar daquele mundo dos sem-respeito-pelo-ouvido-alheio e entendi e me estendi por algumas crônicas.

Cheguei ao trabalho e tudo o que ouvi desde então foi: mas que cara, tu estás com uma cara, mas o que tu tens?, tu precisas tomar alguma coisa, isso vai te fazer mal. Não, não vai, já está fazendo. Afastei-me o mais que pude, trabalhei normalmente, ser professora nos exigi fingir, participei de uma reunião curta, fui para o ponto de ônibus a fim de voltar para casa. Resolvi pagar mais, descer um pouco mais longe de minha casa só para ter a certeza de mais privacidade. Fui de lotação.

No caminho até em casa, muitos pensamentos, inclusive o de que está na minha hora mesmo de ir para outro mundo, porque esse me parece estranho demais, mundo em que as pessoas não reconhecem mais limites, não entendem que há momentos em que se deve respeitar o silêncio, ou pelo menos, abafar os seus próprios sons, pois eles são particulares, não são para os ouvidos de todo o mundo, simplesmente porque pode o todo mundo não suportar o seu som, o seu gosto pelo seu som, mas não tenho como dar o salto mortal, pois amo demais a vida que tenho, mesmo precisando pegar o ônibus toda a segunda-feira para meu marido poder ir à faculdade com segurança. Além disso, não tenho coragem, tenho é curiosidade para saber o que acontecerá daqui a pouco. Não quero perder essa novela tão boa que é a da minha vida e como cortar os pulsos é muito dolorido, não tenho arma, nem veneno e minha casa só tem térreo, sigo vivendo e esperando para ver que outra doideira o mundo vai inventar. No final das contas, no caminho para casa depois de descer do ônibus, passei na padaria, comprei um pacote de meu salgadinho preferido e uma caixa de Bis e estou aqui a me compensar, afinal, venci mais um dia que havia dado a entender que terminaria horrível, mas está repleto de sabor, ao meu som, sem incomodar ninguém.

Desespero mesmo só o que continuo tendo pelo meu carro. Que chegue logo a terça-feira.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Feriado, chuva e história

Feriado de Corpus Christi e eu gripada, de novo. Lá fora, uma chuvinha de inverno. No primeiro momento do dia, pensei que passaria deitada, à base de chá e fungação.
Mas, à tarde, eu já encarava a faxina que havia planejado. Faxina de minha história: tirei algumas horas para organizar as caixas de documentos, fotos e
cartas.

Cartas, sim. Cartas que foram escritas durante mais de dez anos entre mim e meu marido, desde o início de nosso namoro. Na primeira que peguei, a emoção já me tomou. Era a que eu havia escrito em comemoração ao nosso primeiro ano juntos. Enquanto eu lia, ao som, coincidentemente, de uma de minhas músicas preferidas de Lenine, Paciência, não me aguentei e chorei. Encontrei naquelas linhas, escritas com esmero, uma paixão avassaladora, de alguém que, aos dezenove anos, acreditava em um amor para a vida toda. Cada palavra parecia escolhida para demonstrar sentimentos muito verdadeiros, muito puros, cheios de esperança em uma vida maravilhosa, cheios de sonhos ao lado de um homem maravilhoso.

Mas minhas lágrimas não foram motivadas nem pela trilha sonora, nem pela nostalgia, mas pela certeza, absoluta, inconfundível, de que eu, hoje, passados 14 anos, não mudaria uma palavra sequer. Diria tudo novamente, exatamente como ali naquela antiga carta.

Chorei pela comprovação de que minha paixão daqueles primeiros anos não arrefeceu, mas tornou-se um amor seguro, forte, decidido; chorei porque o amor em que eu acreditava naquela época me provou ser insuperável, vitorioso e senhor de meu coração; porque minhas esperanças não foram vãs; porque meus sonhos ao lado de um homem maravilhoso, o mesmo destinatário daquela carta, têm, todos eles, se cumprido por ele, para ele, para nós.

Guardo cada uma das cartas, cartões, marca-páginas e recadinhos que nos trocamos desde que nos conhecemos. Li alguns hoje, enquanto organizava-os em uma nova e mais ampla caixa. Toda nossa história de amor está ali, cada desafio superado, cada pedido de perdão, cada confissão de amor eterno, cada desejo, cada pedido. E não sei por quanto tempo essa nova caixa dará conta de todas essas palavras e promessas porque nossa história não acabou, continua sendo escrita e compartilhada, continua tendo sonhos, esperanças, declarações de amor. Nem todas registradas em cartas, mas todas sentidas, expressadas por nossos olhares, nossos toques, nossas descobertas e cumplicidades.

Não há caixa que comporte tanto amor, tanta certeza de estar ao lado da pessoa certa, do amor certo, para a vida toda.


sábado, 26 de março de 2011

Promessa

Dia desses, numa aula de português, comentei com meus alunos que escreveria um texto sobre eles no meu blog. Bom, estou aqui para isso. Trata-se de minha turma do segundo ano do ensino médio. E o assunto surgiu depois que comentei sobre uma música que eles me haviam sugerido.
No início do ano, passei uma lista em todas as turmas para que pudessem sugerir músicas, filmes e livros para estarmos explorando em nossas aulas. Além de me mostrar um pouquinho do que eles gostam, também me ajuda a conhecê-los melhor.
Semana passada, sentei ao computador para buscar vídeos das músicas sugeridas e me deparei com letras bastante questionadoras, que buscam respostas para os conflitos da sociedade, que apontam a mudança para um mundo melhor, letras que me fizeram admirar ainda mais meus alunos.
E, na aula, quando entreguei a letra da música a eles, vi suas reações animadas. Algumas meninas me perguntaram se eu também gostava da banda que cantava aquela música. Não, meus amores, a profe não gostava, porque não conhecia. Foram vocês que me mostraram algo novo, novo e muito, muito bom.
Conversamos a respeito da letra. Ouvimos a música (sim, eu baixei o vídeo do youtube). E me senti mais próxima de meu queridos.
Por isso, cada vez mais fico pensando nas pessoas que dizem, que afirmam com "tanta propriedade", que adolescente não pensa, que age por impulso, que não sabe o que é certo. O que meus alunos e alunas do ensino médio, não só do segundo ano, mas do primeiro e do terceiro, têm me mostrado é que pensam sim, e muito. Eles discutem a sociedade, questionam suas ações, sabem muito bem como salvar o mundo, como buscar soluções, como buscar ser feliz. Admito que, às vezes, agem por impulso, mas isso faz parte da construção de suas histórias e agir por impulso não é privilégio de adolescente, tem muito "senhor" que faz o mesmo.
O que posso, então, como educadora, fazer por eles, já que sabem tanto? Posso mostrar-lhes como passar pela vida sem que o sofrimento marque tanto, posso ensinar-lhes o que devem saber para terem melhores posições no mercado de trabalho, posso adverti-los de que o mundo pode ser muito cruel, mas se estamos preparados, com as ferramentas certas, podemos vencer. Posso ensiná-los a gramática que ajuda no concurso, que faz conseguir muitos pontos no ENEM. Posso ajudá-los a se expressarem melhor, a colocar suas ideias de forma a convencer. Posso mostrar-lhes que há muitos mundos por aí, através da literatura. Mas isso tudo faz parte de minha profissão, de quem sou para eles, a profe. O que eles têm me ensinado faz parte da vida deles e isso não tem preço.

domingo, 6 de março de 2011

Aviso Prévio

Dia primeiro de março recebi o temido de muita gente: aviso prévio. Das três escolas em que trabalho, da mais antiga tive meus serviços dispensados. E dizia isso mesmo: não precisamos mais de seus serviços.
Na verdade, eu já esperava por isso, pois quando a gente topa demais com a chefia, quando não aceita certos abusos de autoridade, quando a gente expressa o que crê ser o correto e, principalmente, quando a gente tem argumentos mostrando que o outro está errado, aceitamos o risco de sermos dispensados. Faz parte.
O que fiz? Peguei minhas coisas, me despedi dos colegas queridos, deixei-os tranquilos quanto ao que eu estava sentindo e fui para casa com cem quilos a menos nos ombros.
Desde esse dia, estou adorando chegar em casa mais cedo, bem mais cedo, pois nessa escola eu trabalhava à noite. Estou adorando saber que não preciso correr de um lugar para outro, posso terminar meu trabalho da tarde, arrumar meus materiais com calma, conversar com as colegas, e ir, a passo lento, até o estacionamento pegar meu carro, ligar o som e seguir na maior tranquilidade para casa, para o mercado, para onde eu quiser ir.
Claro, o dinheiro era bem vindo, mas não passarei fome, bem pelo contrário, já labutei muito para, hoje, eu ter mais tranquilidade financeira. Terei mais tempo para mim, para me organizar, para descansar, para ler o que gosto, para ver a família, para ouvir música, para escrever (coisa que amo). E não, não buscarei outro emprego. Estou contente da vida com o que tenho agora. Estou feliz com a experiência de continuar com minhas 25 turmas de crianças e adolescentes, além do maravilhoso ensino médio que me delicia em três manhãs da semana.
Não há nada melhor na vida do que isso: sua primeira demissão ser tão agradavelmente sentida como uma necessária mudança. Hora de erguer os olhos para outros horizontes, de seguir por outros caminhos, de fazer outras escolhas, de se permitir viver outras aventuras.
Saudades? Dos colegas queridos, das amizades caras, dos alunos e alunas que até hoje me deixam recados tão carinhosos. Minha história é inapagável, e durante 6 anos ela se fez entre muitas conquistas e novidades nessa escola. Mas ela não foi única, outras já foram, outras estão aí e outras virão. Vai se saber o futuro.
O que me importa, nesse momento, é estar saboreando o fato de experimentar, após tanto tempo estudando e trabalhando à noite (12 anos no total), o que é chegar em casa e poder curtir um chimarrão na rede, ao som do vento batendo nos galhos das árvores, regar as plantas sentindo o perfume da hortelã e do jasmim.
Não digo que nunca mais voltarei a trabalhar no período noturno, mas, por enquanto, quero mesmo é me deliciar com essa liberdade que eu havia esquecido que existia. E, como bem canta Ceumar, eu quero mesmo é me reinventar. Não ser uma página em branco, mas ter muito espaço para novas histórias.

Reinvento
Estrela Ruiz e Ceumar

Não querer ser sempre
para pra sempre ser
isso eu aprendi com o vento
saudade eu tenho de tudo

o que a gente vai viver
mas ainda não teve tempo

tudo o que é leve
o vento leva
eu quero aprender um jeito de reinventar
certeza ou tristeza
de qualquer jeito
o vento vai levar na brisa do mar
no sopro da vela ao se apagar

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Para refletir: O que é importante para os brasileiros???

domingo, 30 de janeiro de 2011

Mudanças

Mudanças: tema frequente em meus textos, vem de novo para poder explicar o que ando fazendo nas férias.
Nesse 2011 não vou fazer nenhuma viagem de verão. Não por falta de vontade, nem de convites de pessoas da família para gente ir à praia. A situação tem se dado por pura falta de dinheiro, mas falta essa planejada. É que decidimos, meu marido e eu, realizar umas mudanças necessárias aqui em casa. E para tanto, dinheiro seria imprescindível. Por isso, tudo é por opção. Usamos a graninha das férias para refazer nosso banheiro e organizar alguns cômodos. Só que já fizemos tudo o que pretendíamos e ainda nos sobraram vários dias de férias.
Eu, de cabeça vazia, passei a planejar mais mudanças. Resolvi mudar meu quarto. Trocar tudo. Cama, guarda-roupa, criados... Mas aí entrou a questão dinheiro. Sem ele, lá se foram as mudanças.
Pensam que fiquei atirada num canto, chorando as pintangas??? Fui pesquisar, estudar formas de mudar sem gastar, ou pelo menos, não gastar muito. Resolvi: meu quarto está em ótimas condições, bem cuidado, madeira nobre, o que eu quero trocando tudo??? Como o que mais me chateava era a cor, pintei com outra. Mudei a cor dos móveis e eles estão de cara nova, alegres, do jeito que gostamos e... tudo resolvido com pouquíssimo gasto financeiro.
Mudar é sempre bom, mesmo que pareça difícil (lixar todos os móveis, desmontá-los, pintá-los e remontá-los não foi nada fácil), mas no final acaba compensando.
Nas fotos, uma ideia da transformação que ando fazendo: minha cômoda, antes e depois.



















terça-feira, 28 de dezembro de 2010

24 de dezembro e meus urubus

Noite de 24 de dezembro. Casa limpinha e cheirosa, quitutes preparados para esperar a família. Mesa arrumada com as cores do natal: verde, vermelho, dourado. Um arzinho gostoso entrava pelas janelas abertas, o perfume do jasmim no jardim deixava tudo com ar bucólico. Às 20h a turma começou a chegar. Primeiro a mana Cáren, com o marido e a filha de oito anos, conversas animadas na sala, enquanto aguardávamos o resto do pessoal. Então... o boicote: faltou energia!
O grito, tanto nosso, quanto da vizinhança, foi de total assombro. Como? Na noite do Natal? Pela minha cabeça, só vinham lembranças de toda a comida no refrigerador, dos sorvetes no freezer, do churrasco que seria assado na churrasqueira elétrica (sim, faríamos churrasco, nada de peru), dos ventiladores para amainar o calor, das luzes de natal no hibisco do jardim, no meu pendente novo na sala...
Depois de dez minutos, comecei a ficar nervosa. Será que teria tanto trabalho para comer no escuro? Ou pior, não comer? O que seriam de minhas enfeitadas saladas, meus apetitosos aperitivos, e os doces, a sala de frutas? Corri ao telefone e liguei para a empresa de energia. Ocupado. Redisquei. Ocupado novamente. Deixei na rediscagem automática. Ocupado, ocupado, ocupado. Ah, havia a alternativa do sms. Enviei. Na mensagem de retorno, o conserto poderia ser feito dentro de 30 a 90 minutos. Bom, menos mal. Então, uma hora dessas a luz voltaria e poderíamos fazer nosso churrasco e comer aquele monte de comidas e olhar uns nas caras dos outros enquanto conversávamos.
Mas depois de 40 minutos e já com o jantar pra lá de atrasado, dois urubus enormes pousaram em meus ombros e fiquei num amargor só.
Ok, me boicotei. Eu mesma estraguei minha noite de natal. Enquanto todos se divertiam e davam muitas gargalhadas pela situação, iluminados por três velas vermelhas e uma lanterna de lâmpadas de led, enquanto comiam dos petiscos que eu havia servido e bebiam tranquilos, eu não entendia como, por Deus, podia ser real não ter luz na noite de natal. Todos tentavam me animar, já faziam planos para comer o que eu havia preparado: começariam pela sobremesa, já que o sorvete corria o risco de derreter, depois as saladas e, quando viesse a energia, faríamos o churrasco e o comeríamos. Claro que era tudo uma fantasia, todos sabiam que eu “jamais” mudaria a ordem estabelecida para a ceia de natal. Ordem esta elegida por mim, planejada por mim, organizada por mim e que seria, nem que fosse às 2h da madrugada, executada por mim.
Lá pelas 22h30min, ouvi o grito geral da galera. Uma luzinha fraca surgia nas lâmpadas. Era ela voltando, cheia de medo, devagar. A luz iluminou a casa, a rua, os jardins de meu bairro e trouxe nova vida a várias e várias ceias de natal.
Saímos correndo a acender o fogo na churrasqueira, espetar a carne, os salsichões. Fui fazer o arroz, por as saladas na mesa, apagar as velas. Via meu lindo pendente iluminado, as luzinhas pisca-piscando anunciando que a noite estava salva. Durante os próximos minutos não parei um segundo. E em plena meia-noite, enquanto os foguetes espocavam no céu e minha família se abraçava, desejando feliz natal e tudo de bom, eu, a anfitriã, estava presa entre panelas e pratos de carne assada. Passei rápida por todos, gritei um feliz natal sem nem prestar atenção e concluí os preparativos.
Olhei todos sentados, comendo, felizes, num clima que eu não entendia porque não havia me permitido cultivá-lo. Minhas costas doíam, eu estava cansada, chateada e achava que tudo dera errado, que nada havia saído como planejado. E me esquecera do principal: o motivo de toda aquela preparação. Não só o unir a família, mas o comemorar um dia especial, o nascimento de Cristo. E mesmo sem saber a data correta em que Ele nasceu, o fato é que nasceu e seja dia 25 de dezembro ou meados de março, como afirmam alguns historiadores, o que reside no sentar à mesa para ceiar com a família, o que nos faz dar presentes aos que amamos e queremos bem é que Cristo veio, nos deu vida em abundância e nos enche de dádivas todos os dias.
Meus urubus custaram a me deixar em paz, relaxar e aproveitar a noite. Já havia passado a ocasião para os discursos, para a oração em família (sempre conduzida por meu pai), mas naquele momento em que senti minha alma mais leve, agradeci por tudo, inclusive pelo escuro de algumas horas atrás, porque entendo o que significa Jesus ter nascido, cumprido sua missão. Sua vida e seu sacrifico é o que nos trazem luz.
Como sempre, estou aprendendo, inclusive a ser menos Marta (aquela que, ao invés de dar um tempo para os afazeres domésticos e se deleitar com as palavras de Jesus, ficava torrando a paciência de sua irmã para ajudá-la). Foi uma experiência cansativa, estressante, atormentadora ver todos os seus planos, tão bem arquitetados, irem por água abaixo. Fui dormir às 6h da manhã, depois de todos terem retornado a suas casas. Fiquei pensando que natal fora aquele. Na mesma noite eu já havia dito, chateada, que era o pior natal pelo qual passara. Mas será mesmo? Ou eu não tinha aprendido a lição? Natal sempre será maravilhoso, porque tenho Cristo e minha família, que como ninguém, entende meus ataques de perfeccionismo.

Amo vocês, família. Obrigada por cada um ter vindo até nossa casa para iluminar nossa noite e encher de alegria nosso lar.

E obrigada AESSUL, por nos deixar sem energia por algumas horas e contribuir para mais uma lição em minha vida.

sábado, 23 de outubro de 2010

O que dizer...

Não me lembro de um momento na vida que tenha sentido mais necessidade de escrever do que agora. E também não me lembro de ter passado pela mesma situação que vivo hoje, simplesmente porque não a vivi.
Escrever sobre felicidade, superação, vontade sempre tem sido tranquilo para mim, não que eu não tenha problemas, sempre os tive, como qualquer ser humano. Porém, fato novo na vida, fato que nos exige firmeza de posturas quanto a nosso enfrentamento da vida, quanto ao nosso olhar de fé sobre ela e tudo o que significa viver sempre nos traz sentimentos de incapacidade, impotência, medo do amanhã, estranheza ao que sempre tivemos como seguro e certo.
O que anda zonzeando minha cabeça e a de minha família é a descoberta de um câncer em meu pai. Descoberta dessas por acaso, se acaso existisse, dessas advindas de um exame de rotina. De um simples exame laboratorial, passou-se a conviver com exames infindáveis, biópsia, consultas com diversos especialistas, marcação de cirurgia e o pré-operatório, de todos nós, pois mexer em nosso ente querido é arrancarnos um pedaço.
Mas o que mais me toca não é o fato da doença em si, nem a ele, mas o sofrer esse não sei o que fazer diante do inexplicável, do inesperado, da surpresa e da rapidez com que a vida pode mudar num repente.
Hoje, ele esteve comigo, pude compartilhar de suas lágrimas de temor, não desespero, de impotência, não de falta de fé, pois meu pai é dessas pessoas que nasceram para serem heróis, e não é pela situação que agora nos toma que digo isso, sempre o disse, inclusive para ele.
Se hoje sou forte é porque ele me ensinou a sê-lo, se hoje posso erguer a cabeça e me dizer uma pessoa de bem, honesta e vencedora, foi porque sempre tive e sempre terei um herói de verdade em quem me espelhar.
Meus pais, de igual maneira, têm deixado aos seus filhos a melhor herança que alguém pode deixar: confiança, não em si, como ser todo poderoso, mas em Deus, fé inabalável. Eles são meus melhores exemplos de fiéis, de seguidores de Cristo, de filhos de Deus.
Meus pais, mi papá y mi mamá, son y siempre serán la razón primera del latido de mi corazón, de la seguridad que siento en nuestro Dios, de la fe que compartimos, allá de las diferencias superficiales.
Les quiero, les dejo a mano del Padre, que siempre está acalentando nuestras almas.
Dará tudo certo e esse certo pode ser tudo, inclusive, o inesperado, mas no final estaremos todos juntos, como sempre estivemos.
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A foto foi tirada no Natal de 2008, na casa dos papis.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um lugar para chorar

Sempre que chega essa época do ano fico assim: angustiada, com um não sei quê me devorando por dentro. Talvez seja a experiência de muitos finais de ano cheios demais de compromissos. Só pensar em tudo o que tenho para dar conta até antes do Natal já me deixa zonza. E não sou de exagerar, é que as exigências aumentam consideravelmente nessa época.
Nas escolas, entramos na reta final do ano letivo. São provas, conteúdos, mais provas, fechamentos, conselhos de classe, entrega de avaliações, cadernos de chamada para entregar, reuniões, auto-avaliações, mais reuniões...
Na família, são os encontros de Natal (esse ano será aqui em casa, o que me deixa feliz e assustada), reuniões de amigo-secreto, chegada de parentes de outros estados e que a gente precisa visitar...
Com os amigos a mesma loucura. Como tanto nessa época que engordo todos os quilos que perdi durante o ano, são jantarzinhos, barzinhos, churrasquinhos que não acabam mais...
Ainda há a conclusão de minha pós-graduação que está me deixando maluca, porque parece que nunca termina, sempre tem algo no TCC para arrumar...
E ainda tem a igreja...
Sim, eu vou à igreja. Mas lá é diferente. Lá é meu lugar de respirar, de sentar no colo do Pai, de me sentir à vontade para chorar minhas angústias, meus medos de fracassar, de não conseguir, de ser pequena demais. Quando entro no santuário, só sei ser filha, esqueço o ser professora, esposa, amiga, parente; lá só olho para o Pai e me entrego aos pedaços para Ele consertar, afinal Ele é perito em pegar cacos de barro e deixar o vaso novinho.
Talvez, a maioria das pessoas ache que a religiosidade ou espiritualidade (dê-se o nome que quiser) não depende de se ir a um lugar específico e não depende mesmo, pois o que cremos deve ser vivido como parte de nós, mas eu não abro mão de sair de casa e ir com meu marido, como família, buscar nosso alento, nossa paz, nossa força.
São duas horas de momentos que servem por muito mais do que o tempo pode medir. Lá posso cantar e não estar nem aí se sou afinada ou não, posso erguer as mãos e nem preciso cuidar se alguém me olha, o que pensa, o que vê, porque o que importa lá é agradecer a Deus o que tenho recebido, não o material, mas a contínua graça de seu amor que zela por mim, que me recebe como filha, que me sustenta em meu dia a dia, que me abraça como sou, sem máscaras, sem precisar que eu demonstre força ou garra.
E o que aprendo lá, esse confiar sem condição, me conduz a uma vida não sem sofrimentos, mas a uma vida de fé, de certezas além do que o olho pode ver ou os ouvidos ouvirem. A uma fé que me permite chorar, ter angústias, mas para além delas saber que são passageiras, que fazem parte do ser humano que sou, que lágrimas fazem parte de estar aqui, na terra, mas que um dia, ah um dia...
Em momentos como o de hoje, em que chego em casa um pouco acabada, literalmente me arrastando, com a alma dolorida, um tanto fustigada pelos compromissos do cotidiano, pelas exigências, pelo quebrantamento de saber que meu papai está doente, por me sentir sozinha, faço de meu lar a minha igreja. Porque sei que da mesma forma meu Pai me abraça e me acalenta.
E como não dá para esperar até domingo, deixo as lágrimas escorrerem hoje mesmo, na certeza inexorável de serem enxugadas.

Gracias, mi Papá, por sostenerme en tus brazos de amor. Te quiero muchísimo.
Tu hija Ane.

domingo, 19 de setembro de 2010

Em Buenos Aires

Confesso: enquanto os dias iam passando e a ida a Buenos Aires ficando mais próxima, eu já andava me arrependendo de ter pedido para ir. Quem não conhece o contexto, talvez estranhe. Afinal, a capital portenha é destino desejado de muitos. Mas no caso, tratava-se de acompanhar 68 alunos na faixa etária dos 13 anos em uma excursão de cinco dias, viagem de ônibus (em torno de 20 horas só para ir!) e mais um montão de passeios por Bs As.
Quando o dia 13 chegou, eu já estava quase deprimida. O terror da ideia de cuidar dessas crianças era maior do que qualquer outro sentimento. E mais, eu estava com medo.
Primiera vez que me embrenharia por aquelas bandas com tanta gente. Acostumada a viagens de apenas duas pessoas, andar com um bando de garotos e garotas a mil por hora me deixava em pânico.
Durante o percurso até lá, não dormi direito, não comi direito, não aproveitei direito. Porém, ao pôr os olhos na cidade querida e poder fazer parte do deslumbramento dos meus alunos por estarem, finalmente, e muitos pela primeira vez, em outro país, mandou embora qualquer apreensão que eu já havia sentido.
Foram três dias na Argentina sentindo cheiros, provando sabores, descobrindo pelo olhar dos meus adolescentes como a vida tem cor, alegria e amizades.
Foram dias de festa, de descobertas, de amadurecimento e companheirismo que eu sei, e os outros professores que estavam lá também, que jamais deixarão de fazer parte das lembranças mais queridas de nossos alunos.
Formandos do Ensino Fundamental, eles encerram um ciclo de suas vidas com a experiência de terem vivido dias em que puderam saber o que é tomar decisões, apoiar-se em outros, saber controlar os medos e a saudade. E muitos entenderam que há muito mais para se ver, ouvir e viver do que os metros quadrados que o cercam, que o mundo não é uma redoma de vidro intransponível e que a felicidade deve ser buscada, cultivada em cada passo que a gente dá.
Voltei leve e feliz, agradecida por ter tido a honra de compartilhar esses momentos únicos com eles, de poder fazer parte dessas descobertas, de poder ter recebido a confiança e o carinho deles enquanto estivemos fora.
Esses dias me fizeram ver que o mundo só tem esperança porque podemos acreditar que experiências renovadoras ocorrem, que há gente que ainda precisa descobrir o mundo e amá-lo, capaz de buscar melhorá-lo sempre.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Bullying na escola

Enfrentando a elaboração de um TCC ao final de minha segunda pós-graduação, esta em Inclusão Escolar, decidi por um tema levantado recentemente em uma das escolas em que trabalho: o bullying. Após ter sanado muitas de minhas dúvidas sobre o que é afinal o tal comentado bullying, me peguei pensando o quanto já sofreram todos, vítimas de sua prática.
Buscando subsídios para meu trabalho, encontrei a definição do termo inglês que não tem tradução literal para o português, mas que pode ser facilmente entendido pelo que representa: “o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão” (FANTE e PEDRA, 2008). São as brincadeiras que só têm graça para quem as faz.
Porém, buscar culpados nessa história não é a solução para acabar com o problema do bullying, ele é muito mais feroz do que podemos supor. A violência que é revelada na prática do bullying está em nossa sociedade desde sempre, o que nos torna mais ou menos violentos é nossa capacidade mais ou menos desenvolvida de raciocinar, de controlar nossos impulsos, de arejar nossas mentes com o que é sadio e por nossa busca incessante de romper com os preconceitos.
Hoje à tarde, conversando com um garoto de 11 anos, vítima de bullying por muito tempo, revelado por ele somente agora, já na quinta série, ele mesmo chegou à conclusão de que toda a raiz desse mal é o preconceito.
Estávamos eu e ele lendo um livro bastante teórico sobre o assunto e ele se ateve às manifestações do bullying, à lista de agressões tanto verbais quanto físicas. Ele me olhou e disse: Dessas listas eu sofro isso, isso, isso... Foi me apontando atitudes como xingamentos, espancamentos, humilhações, jogar objetos na vítima, esconder seus pertences, em fim, várias atitudes que ele tem sofrido desde a primeira série na mesma escola.
Nesta semana, em seu recesso escolar, se sentiu mais aliviado, longe dos 33 colegas que ele considera como seu grande terror. Pode se expressar melhor com a família, contar porque odeia tanto ir à escola. Desde pequeno ele sempre se manifestou contra a mesma, chegando até mesmo a pegar um pedaço de pau e dizer que iria explodir a todos ali.
Enquanto sempre se pensou que ele estava era querendo chamar a atenção, devido à adaptação à vida escolar, ele sofria.
E muitos de nossos alunos, sobrinhos, filhos, irmãos e nós mesmos, sofremos calados achando que ninguém vai dar a importância devida ao nosso sofrimento.
O bullying, assim como todo ato de violência, é crime. Deve ser denunciado, requerida atitude das escolas e discutido em família. Deve-se sempre dar voz àqueles que, na maioria das vezes, não falam, mas mostram com pequenas atitudes o quanto sangram por dentro.
Deixar que essa praga se alastre cada vez mais, fundamentados em “isso não é problema meu”, “isso sempre existiu na escola” é ser conivente com o desenvolvimento de um futuro apodrecido e insano.
Sei que há muito para se dizer sobre o bullying, minhas noites estão sendo consumidas pelo tema, e a cada novo aprofundamento me deparo com o assustador drama silencioso vivido ano após ano em nossas escolas.
O diálogo deve ser aberto e começar já. Sinta-se convidado a participar.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vendaval em Canoas

Todos nós procuramos um lugar seguro para chamarmos de nosso. Seja um cantinho na casa dos pais, um apartamento ou uma casa, o que desejamos é poder chegar em algum lugar após o trabalho, tomar um banho e dizer estou em casa.
E quando esse lugar seguro perde telhas, sucumbe à força dos ventos e te deixa embaixo de chuva, mesmo estando dentro de casa?
Hoje, a cidade de Canoas viveu um de seus piores momentos ao enfrentar a tempestade do início da manhã. Já sabíamos que choveria, o calorzinho de julho já havia nos avisado, mas ninguém estava preparado para os dez minutos da tormenta.
Acordei sobressaltada com um estouro sobre meu telhado. Enquanto corria apressada até a cozinha, dizia ao meu marido para dar uma olhada em toda a casa. Eu tinha certeza de que algo havia se quebrado sobre nosso teto.
As rajadas de vento eram atormentadoras, a falta de energia só agravou nosso estado de alarme. Nossa rotweiller, sempre tão corajosa, se escondia num cantinho da garagem. Meu varal já era, o vento havia levado minhas roupas limpas, e quase secas, para o chão. A tempestade parecia não ter fim. Num estrondo, observamos a água começando seu trabalho no quarto que será de nossa filha. Tiramos os móveis às pressas, colocando tudo numa saleta que estava vazia. Enquanto isso, cacos de telhas, vindas do telhado de um dos vizinhos, acabou por abrir a cachoeira em frente à janela de meu quarto. A cortina ficou encharcada. Por mais toalhas que eu colocasse no chão, não tinha jeito de conter a água.
Eu estava assustada, já beirando ao pavor. Era tanto barulho que eu nem conseguia ouvir meu marido falando sobre a telha da pérgola, que estava toda quebrada e a água da chuva torrencialmente se esparramava por todos os lados do nosso futuro jardim de inverno.
Enquanto eu fazia uma prece, e tentava acender uma vela para enxergar melhor, o vento foi acalmando.
Assim como veio, se foi. Em dez minutos, numa média de 100km/h, o vento arrastou casas, árvores, derrubou postes, destelhou construções, derrubou muros, matou gente.
Depois que conseguimos controlar o aguaceiro dentro de casa e calcular os prejuízos, notamos que não havia sido nada se compararmos com a vizinhança. Ao todo, tudo não passou de algumas telhas de barro, umas de plástico e nossa antena de TV. Abri a casa, arejei tudo, sequei o piso e fui fazer café.
Enquanto eu tentava me acalmar na cozinha, meu marido saiu para conversar com os vizinhos. Estavam todos muito apavorados. Havia muita sujeira e cacos de telhas por todos os lados. Nem parecia minha rua, tranquila e organizada.
Enquanto uns se empuleiravam em escadas para ver como estavam seus telhados, outros começaram a contar onde havia poste caído, árvore arrastada, fulano sem luz, beltrano sem teto.
Tomamos um café preto, puro, e fomos à madeireira mais próxima comprar as telhas antes que outra chuva chegasse.
Resolvi levar a máquina de fotografia. Enquanto rodávamos pelas antes calmas ruas do loteamento, eu não acreditava no que via. Parecia, sim, um filme. Um daqueles que remetem ao apocalipse.
Nas ruas, havia mesmo postes caídos, árvores enormes atiradas do outro lado da rua, casas demolidas, telhas e mais telhas quebradas que haviam sido arremessadas por todos os lados.
A cidade estava em caos. Em todas as madeireiras em que estivemos, as pessoas buscavam telhas, lonas, madeiras. Em algumas, as telhas já estavam sendo vendidas somente com reserva, pois o estoque havia acabado.
As sinaleiras estavam todas desligadas. As pessoas se amontoavam nas calçadas, tentando entender o que era aquilo tudo.
Em meio ao caos, a maioria dava graças a Deus, pois só haviam sofrido danos materiais. E como disse uma vizinha, em meio a risos, telha a gente compra.
Depois de retornar para casa, me senti meio idiota e mal agradecida. Na verdade, nem havíamos sofrido avarias tão enormes assim, e eu sem confiança, desmoronava na ideia de ver meu lugar seguro ir-se pelos ares.
Mas não foi, perdeu partes, mas foi só. Mesmo assim, mesmo eu vendo o trabalho de meu marido sendo destroçado pelas águas e pela fúria do vento, pois ele mesmo construiu nossa casa, não perdi a sensação de meu lugar seguro, meu porto, minha identidade.
E fico a imaginar as centenas de pessoas que realmente perdem tudo, mesmo que esse tudo nos pareça tão pouco. Não são apenas os móveis, as roupas e as fotografias que se vão, é toda a vida da pessoa, tudo o que ela sempre foi até aquele momento.
Vendo as pessoas nas ruas meio atônitas com o ocorrido, fiquei pensando em como sou feliz, em como estou segura, não por ter uma casa, mas por ter, além do material, o sentimento de lar, de pertença, de estar no mundo.
Poder retornar, ter para onde ir ao final de um dia de trabalho ou de qualquer outra atividade dá a nós, seres humanos, a certeza de existirmos, independente de quão grande ou quão pequena seja nossa moradia.
Num dia como o de hoje, ficam minhas preces para que todos os canoenses possam retornar para seus lugares seguros, sejam eles quais forem, estejam eles em que estado estiverem, desde que não percam e não se esqueçam de quem são.

Fotos tiradas no Bairro Olaria, Canoas, no dia 12/07/2010.

terça-feira, 15 de junho de 2010

No dia dos namorados

Sim, eu comemoro o dia dos namorados. Não pelo apelo consumista de toda data comemorativa pertencente ao nosso calendário, mas pelo romantismo que há em, numa data tão celebrada, receber um convite formal para um jantar especial num lugar desconhecido para mim.
Sim, foi surpresa, agradável e apetitosa surpresa que nos brindou com uma noite maravilhosa, com deliciosos pratos da gastronomia gaúcha e um coquetel especial para a noite.
Obrigada, meu Jones, por nunca deixar de ser meu namorado, por celebrar comigo essas datas que muitos consideram bobas, por ser romântico, apaixonado e meu marido há nove anos.


Te amo.

domingo, 4 de abril de 2010

Páscoa

Hoje, comemora-se a Páscoa. O discurso não poderia ser outro a não ser o de renovação, revitalização, ressurreição. Para mim, há mais nesse dia do que os “res” podem dizer. Na semana que se inicia, iremos dar mais uma chegadinha no fórum para mais um papinho com o povo de lá. São os trâmites necessários para que a Lei diga que somos capazes de exercer a maternidade e a paternidade. Mas tudo bem, isso é nada. Chegará o dia, como sempre chega, em que olharemos para trás e nos lembraremos disso como algo muito tênue.
Essa Páscoa não tem chocolate aqui em casa, ela já está doce naturalmente. Está com um sabor especial de realização de algo que, na verdade, nem era daqueles sonhos de uma vida inteira, mas que se tornou tão forte que é para a vida inteira. Não é dessas paixões à primeira vista, mas desses amores plantados, cultivados e que crescem, engrandecem e florescem e nunca mais deixam nossos dias sem perfume.
Já sabendo como andam os processos de adoção em nosso país, não temos ilusão quanto ao tempo em que teremos nosso segundo quarto da casa ocupado, sabemos que não é para tão logo, mas sabemos que acontecerá. Não importa quando, importa como. E será nesse espírito de passagem, de vida a dois, para vida a três, com muita doçura, esperança e amor. Cheios de encantamento e festa.
Como hoje celebramos a ressurreição de nosso Deus, celebraremos a nossa nova vida renovada, através de novos olhos, de novas perspectivas e ideais.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ela fez pra mim

Creio que uma das melhores coisas da vida é ter uma família que se ama, se respeita, que briga de vez enquando (impossível não brigar, discutir, magoar), mas que se perdoa sempre, independente do tamanho do mal que se fez ou da ferida que se abriu. Tenho o privilégio, a dádiva, de ter uma família assim: unida. Poder dizer que minhas melhores amigas são minhas irmãs é muito bom, é maravilhoso mesmo.
Minhas irmãs são daquelas pessoas únicas na vida da gente. Uma é muito diferente da outra e na diferença elas se completam. A loucura de uma é equilibrada pela prudência da outra. Amo as duas com igual amor e respeito não só seus estilos de vida como suas maneiras especiais de manterem sua fé acima de qualquer coisa.
Manas: vocês são minha inspiração. Não há Ane sem vocês, sem mami, sem papi, sem mano, sem sobrinho e sobrinhas, por isso somos família e por isso posto aqui um carinho que recebi da Cáren, a mana do meio.
Amei mana.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Búzios que não é a da novela

Nessas férias de verão, eu e meu marido resolvemos conhecer um pouquinho do Rio de Janeiro. Para tanto, planejamos cinco dias em Búzios e três dias no Rio.
Quando pensamos em Búzios, ainda não havia a loucura disseminada pela novela global Viver a Vida. Conforme os dias iam passando, íamos tomando conhecimento da fama da cidade. Após uma viagem de duas horas de avião até o aeroporto Galeão, tomamos um ônibus na rodoviária e rodamos por três horas, atravessando a Ponte Rio-Niterói e seguindo por estradas sem acostamento e com altíssimos pedágios (sim, são mais altos que os cobrados aqui). Descemos no lugar indicado por nosso anfitrião e chegamos ao hostel baratinho e muito limpo no qual havíamos reservado nosso quarto.
Já tinha escutado a respeito dos hosteles, de como podemos nos sentir em casa e é verdade. A experiência foi a melhor possível. Conhecemos pessoas excelentes, argentinos que vivem há muito tempo em nosso país, que vieram fugindo da repressão da ditadura de lá e que encontraram aqui, num país também vivendo seus dias negros, paz para construírem suas famílias e trabalharem por elas.
À noite, Búzios ferve. A pequena Rua das Pedras se enche de turistas brasileiros e de vários outros países: são cubanos, colombianos, peruanos, argentinos, uruguaios, suecos, italianos, enfim, um mar de gente de várias nações. Ouvir a mistura de línguas pelas ruas é bem interessante. Lembra as histórias sobre a Torre de Babel.
Dá para se ir por toda península de ônibus ou de van (as famosas lotações), essas são mais baratas e bem mais rápidas, além de passarem a todo momento. Por isso, tivemos a oportunidade, caminhando muito, de conhecer dez praias maravilhosas e mais Cabo Frio e Arraial do Cabo.
As praias são limpas, organizadas e suas águas geladérrimas. Mas não deixei de me aventurar no cristalino em que dá para ver os peixinhos nadando entre nossas pernas. Até aí tudo maravilhoso. Tudo um paraíso. Porém, Búzios não estava preparada para o sucesso repentino.
Conversando com seus moradores, percebe-se a revolta em relação às promessas eleitorais feitas pelo atual prefeito. Promessas de emprego para o povo local, que continua tendo que ir a Cabo Frio (cidade bem mais próspera e desenvolvida), de diminuição da exploração de alugueis de cadeiras e guarda-sóis na beira das praias por barracas sem o mínimo de saneamento e higiene, de organização das escolas, de oferta de cursos técnicos e profissionalizantes.
O trânsito é uma loucura. Como a cidade só tem em média vinte mil habitantes, não há semáforos, nem calçadas amplas, muito menos controle de tráfego, simplesmente porque Búzios nunca precisou de nada disso. Mas agora, de uma hora para outra, a cidade encheu, fervilhou, e quem vai até lá, na maioria das vezes, busca o encanto dos restaurantes a la Maradona, de pousadas a la Helena e de uma vida de sonhos emoldurada pela TV.
Mas enquanto a rede hoteleira marca seus domínios com novos empreendimentos e condomínios residenciais de verão são construídos e ofertados aos montes, o povo agoniza sem emprego, sem educação de qualidade, vendo seu santuário de sossego ser transformado num receptáculo de dinheiro com destino externo.
Os donos de pequenas pousadas e hosteles vibram com seus estabelecimentos lotados, mas são realistas, não sabem até quando isso tudo vai durar, talvez mais um mês ou dois, dependendo dos dias de sol que ainda restam e da ilusão de um Viver a Vida que só existe na novela.
Que Búzios continue linda, cheia de graça, de luz e de gente que adora ser de lá e que só quer trabalhar, estudar e ter uma vida digna e sossegada. Assim queremos todos nós brasileiros, não importa de onde somos nem onde vivemos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Mudanças

Mudanças são necessárias ao longo de nossas vidas. Há aquelas forçadas por circunstâncias as quais não gostaríamos de vivenciar, já outras são recebidas com alegria e feitas imediatamente. Na maioria das vezes, elas nos dão um certo medo, medo do inesperado, do resultado que não conhecemos ainda, do que podemos eventualmente estar deixando de lado.
Ando nessa fase de mudar algumas coisas, alguns planos para o futuro, alguns retornos ao passado. E ando lutando bastante para manter algumas coisas que não quero e acredito que não deva mesmo mudar.
Além de mudanças físicas, como ter que pensar no espaço que nossa filha, espero que não demore muito, virá ocupar, também mudanças em minhas posturas e enfrentamentos. Ultimamente, tenho sido forçada a mudar algumas de minhas atitudes frente à gente chata. Quando falo chata, estou falando daquele tipo de pessoa infeliz que ou tem inveja ou não acredita na felicidade alheia. Pessoa que vê em cada problema o fim do mundo, em cada aspecto negativo da vida a total perda de sentido para todo o resto. Pessoa desanimada, que vê tudo com lentes cinzas e tenta, a todo custo, levar todos a sua volta a pensar da mesma maneira.
Essas pessoas estão por toda parte e talvez, muitas vezes, nós mesmos sejamos assim, mas consegui, com o apoio e amor de minha família e de meu marido e com a força graciosa de Deus, vencer a depressão e não posso mais permitir que em minha vida exista pessoa capaz de me empurrar para baixo.
Estou mudando minhas atitudes com relação a isso. Antes, eu esperaria mudar os outros, agora eu mudo a mim mesma. Faço o que meu limite permite, de resto deleto e sigo meu caminho, cuidando do que me é tão caro e precioso: paz de espírito e tempo para os que amo.
E esse pode parecer um pensamento muito egoísta para algumas pessoas, mas não deixo de ajudar, só não posso, de jeito nenhum, permitir que os problemas alheios sejam meus problemas. O que posso fazer para minimizar a dor dos outros, eu faço, mas não posso ficar pior do que eles.
A felicidade realmente não custa caro, mas não é por isso que eu vou jogar a minha fora.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Apaixonando

Existem paixões as mais variadas. Desde a leve até a louca paixão; a que faz crescer e a que destrói tudo que há pela frente; a que traz o céu para a terra e a que leva o seu objeto para o inferno. E esse objeto pode ser uma pessoa, uma coisa, uma ideia, uma atitude. Todos nós desenvolvemos nossas paixonites, agudas, mas facilmente substituídas por outras e muitas vezes, mas muitas mesmo, lutamos para manter a paixão por algo que já não tem o mesmo sabor, nem o mesmo cheiro encantador de antes.
Em jornada pedagógica em uma das escolas em que trabalho, tenho observado os vários estágios da paixão pela educação. Estamos num trabalho de reflexão e re-estruturação das áreas administrativa e pedagógica e contamos com todo o quadro de professores nos debates. Tem sido interessante, para se dizer o mínimo. Como nossa escola oferta várias modalidades de ensino, fundamental (EJA), médio (regular e EJA), técnico profissionalizante e superior, as contribuições dos colegas das mais diversas áreas, licenciaturas, bacharelados e engenharias, têm contribuído de forma extraordinária para o crescimento do grupo como um todo.
Nisto está a paixão. Tenho ouvido discursos acalorados, defesas, questionamentos, inquirições, busca por esclarecimentos tanto da parte da supervisão escolar e direção quanto do corpo docente. E é gritante o fato de como os participantes estão motivados e imersos nas problemáticas apresentadas e na busca por soluções, como iguais, sem “eu mando, vocês obedecem”, mas com abertura e franqueza.
Nem tudo são flores perfumadas, óbvio, mas há no grupo, tão heterogêneo como o nosso, uma unidade mais palpável, mais observável e que tem proporcionado momentos de mais elucidação de problemas, retomada de processos, centralização de objetivos viáveis e não advindos de utopias impraticáveis. A cada noite, mesmo que em pleno meio do mês de janeiro, tenho saído de lá com a sensação de que em 2010 as paixões serão aquecidas e não suplantadas por cada novo desafio educacional.
Hoje, foi a noite dos projetos, reuniões por áreas para definição do que será, de fato, realizado para que o educar não fique cerceado por quatro paredes de uma sala de aula. Em nosso grupo, de línguas e literatura, ideias não faltaram, ideias essas que queremos que saiam do papel, ideias pelas quais trabalharemos para vermos realizados e alcançando os objetivos elencados, ideias que nos reacenderam a paixão pelo que já fazemos, paixão para que possamos nos mover a fazer o nosso melhor e a levar outros a também se apaixonarem pela educação, em sua melhor forma de expressão: a arte.
Que essa paixão que hoje nos move só se renove, ano após ano, apesar dos pesares do contexto educacional em que vivemos, apesar das limitações as mais variadas. Que as alegrias dos sucessos que temos no decorrer de nossa prática nos sustentem com a mesma alegria desses dias de verão que estamos passando na escola, dias de se apaixonar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

De filhos

Quem me conhece sabe que sempre sustentamos, meu marido e eu, uma postura bastante crítica sobre ter filhos. Enquanto nossos amigos, colegas e irmãos babavam em seus rebentos, nós nos mantivemos distantes. Quando inquiridos sobre o tema dizíamos que não queríamos, simplesmente isso. Não era nossa praia, não fazia parte de nossos planos, legal termos sobrinhos, blábláblá.
Há cerca de três anos, com a vida mais estabilizada financeiramente e o casamento já beirando os sete anos, começamos a “pensar” no assunto. Do ano passado para cá, tomamos nossa decisão, a mais louca, pirada decisão: queremos um filho. Minhas amigas acharam engraçada a ideia, já que eu nunca havia sido nenhuma entusiasta do assunto. Mas me entenderam, como toda mulher entende outra mulher e explicaram o fenômeno: tinha chegado a idade, o tal do relógio biológico havia dado suas badaladas.
Então, para surpresa maior da população a nossa volta, decidimos que nosso filho será adotado e que poderá chegar com até dois anos de idade. Espanto geral! Ouvi muita pergunta idiota, mas, também, muitas exclamações de felicidade, de apoio.
O início é, realmente, o mais complicado. Ninguém espera que duas pessoas saudáveis prefiram adotar. A adoção, na concepção de muitos, ainda é para quem “não pode” ter filhos biológicos. Tive reações as mais diversas, inclusive na família. Diante dos olhares incrédulos e até debochados de alguns, tem que se ter a decisão muito bem fundamentada em nossa mente. Como, para nós, nosso desejo estava muito claro e evidente, não tivemos receios de enfrentar a situação família e mostrar a ela que precisávamos de todos ao nosso lado, pois nosso filho também seria sobrinho, neto, primo. Agora, já sei que meu filho terá muitos abraços, carinho, amor, mimos e tietagem das tias corujas. Terá avôs atenciosos e primos para brincar. E já antevejo em seu quarto um mural cheio de fotos com toda a família em suas festas de aniversário.
Mas, voltemos às perguntas:
Primeira pergunta idiota: Mas por que, você não pode ter?
Segunda pergunta idiota: Mas você não quer um seu?
Terceira pergunta idiota: Mas você não vai senti-lo no teu ventre, não vai amamentar?
As perguntas estão, sempre, relacionadas a mim: você isso, você aquilo. Por que não me perguntam, então, se estou pronta para cuidar de uma criança que provavemente virá com problemas de desnutrição, maus tratos, abandono. Todos, mas todos mesmo, que me questionaram apontaram o que considero um grande defeito quando se fala em filhos: a idealização, os desejos dos pais e não as necessidades do filho.
Minha resposta sempre foi um sorriso e se eu percebesse que valeria a pena explicar nossa decisão, então eu explicava, se não sorria do mesmo jeito e respondia idiotamente.
Esclarecer sentimentos, o porquê da questão, sempre foi um desafio para o ser humano, e não serei eu a conseguir tal proeza assim, de uma hora para outra. Só sei que quando duas pessoas adultas, parceiras em tudo na vida, cúmplices, amigas, amantes, que estão juntas a bem quatorze anos decidem que vão adotar uma criança, que vão dar um lar, uma família, oportunidades, amor infinito e mostrar o caminho do bem para ela, não tem jeito. Elas vão mesmo adotar.
Já demos entrada nos papéis. Embora a burocracia ainda seja grande, concordo com as entrevistas e pareceres, pois o que está em jogo não é o desejo dos pais, mas a necessidade da criança. Não sei quando teremos aquele que amaremos e chamaremos de filho, mas já sonhamos com sua chegada, já planejamos seu espaço, já preparamos, em nossos corações, seu canto seguro.
A vida é mesmo essa loucura e por amar estar viva é que não quero perder nem um tantinho dessa magia toda que nos faz realizarmos sonhos que antes não tínhamos, de extrapolarmos as expectativas sobre nós mesmos. Creio que crescer também é isso, pensar que se pode ser mais e melhor tendo outros a nossa volta.


E serei mãe, eu que dizia aos quatro ventos que nunca teria filhos. Quer coisa mais “punk”?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Em 2010...

No próximo ano, o que mais quero é a simplicidade. Começo pelo meu blog, simples.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Medos e diferenças

As pessoas são mesmo diferentes, diferentes umas das outras e diferentes delas mesmas em diferentes momentos. Parece diferença demais, mas é isso mesmo. Hoje somos alguém já um tanto diferentes de quem fomos ontem e amanhã... bem, amanhã será outro dia.

Eu sou um caso clássico: dificilmente me aborreço de cair o beiço, como dizem; raramente me sinto diminuída perante outras pessoas; normalmente me amo loucamente. Mas não acordar e me considerar a última das bruxas tortas, nem ficar de mau humor um dia inteiro, muito menos catar assunto interessante na cachola para chamar a atenção de pessoas que julgo, momentaneamente, melhores do que eu me assustou tanto hoje. Pela primeira vez, e isso com certeza absoluta, me vi com medo, literalmente, de perder o emprego.

Ok, todos sentem lá um medinho vez ou outra, principalmente quando fazem algo que não deveriam ter feito e lá vem bronca. Mas o que senti hoje e ainda está aqui me apertando o peito é quase palpável. Tenho dois empregos, se eu tivesse que deixar um, não morreria de fome, não sairia a mendigar, não ficaria nem sem meu ar condicionado. O que está em jogo, para mim, não é o dinheiro em si (bendito seja, é claro), nem status, nem minhas 20 horas de labuta, mas o “perder”, o “ser mandada embora”, o “você está demitida!”.

Nunca fui demitida, nunca me chamaram em um escritório com formalidade excessiva para me dizerem que meus serviços não eram mais necessários. Já saí de outros empregos, mas fui eu, por escolha, por livre vontade, que saí. Fui eu a avisar que não desejava mais estar li por esse ou aquele motivo. Fui eu a dar as cartas. Meu medo agora é o de viver o outro lado, o lado a que todos, CT assinada ou não, estamos sujeitos a vivenciar mais dia menos dia.

Motivos para o medo? Logicamente que não. Sei a profissional que sou, sei o trabalho que realizo, sei que muitas vezes supero expectativas, piso na bola vez e outra, mas sempre conserto meus rasgões, sempre olho bem, aprendo muito, sou fácil de me adaptar (isso está parecendo carta de apresentação). Mas é que, pela primeira vez, não quero mesmo sair. Não quero nem me mandar, muito menos ser mandada embora.

Crueldade, isso de um dia sentir uma coisa, no outro sentir outra coisa. Dor no peito, mesmo, angústia irracional que vai me acompanhar latejando até o ano que vem, época em que os avisos começam a ser dados, sejam eles bons ou ruins. Dorzinha chata, carrancuda, que eu não conhecia.
Mas observando o ser humano e olhando me no espelho todos os dias, sei que essa aflição toda pode durar meses, ou dias, ou até mesmo nem existir dela a mínima lembrança na manhã seguinte. O fato de mudarmos constantemente, de evoluirmos para garantir a continuidade da espécie, tem ajudado a vida moderna a não ser tão indigna, a não pregar tantas peças, principalmente quando se sabe que mudanças são necessárias na maioria das vezes. Talvez amanhã eu só me lembre dessa lembrança porque estará registrada nesse texto. Assim espero, porque a dorzinha está gritando alta e chatamente.