quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Paraíso com fome


Recentemente, e quando falo recentemente é há 15 dias, estive em Maceió, capital de Alagoas. Além, claro, de muita praia, coqueiros à beira-mar, água de coco e exploração turística, vi muita gente sofrida, trabalhadores dos canaviais, ambulantes nas praias e pedintes.
Em meio ao paraíso que os guias de turismo nos empurram durante os passeios oferecidos pela agência de viagens, conseguimos alugar um carro e rumarmos para Recife, a 247 km de Maceió. Foi umas das melhores coisas que fizemos, meu marido e eu.
Durante o trajeto, quase perdidos, vimos situações e realidades que custamos a crer. Vi mulheres com trouxas de roupas na cabeça, várias crianças ao redor, indo em direção ao rio para lavá-las. Outras esfregavam suas panelas mais adiante. Casebres de sapê (barro nas paredes e teto de palmeiras), sem iluminação elétrica, água ou esgoto, se amontoando às margens da estrada. E soube de pescadores que perderam suas terras para endinheirados políticos, técnicos de futebol e empresários, sobrando para eles apenas as rebarbas próximas ao asfalto e sem condições mínimas de vida digna.
Fiquei me perguntando o quanto de problemas existe nesse meu país. Conheço pouco dos estados em que estive, mas saindo da linha turística, se vê o suficiente. Já estive em Foz do Iguaçu e vi pobreza, falta de educação, falta de recursos, pobres demais, fome demais, procura demais. Também percorri as ruas e avenidas de Natal e me assustei com meu primeiro contato com o nordeste brasileiro. Num dia de passeio de bug, pude olhar as escolas, pude ver as crianças na hora da saída, em sua pobreza, chupando picolés de gelo para suportarem os quase 40°C e a areia, muita areia. Agora, em Maceió, com meu olhar mais apurado para as injustiças, pude ver mais.
Embora as fotos que trouxemos tenham o sabor da aventura paradisíaca, de minha memória não saem os oprimidos que conheci, como as crianças que vinham na janela do restaurante pedir comida e eram enxotadas, como animais, pelos garçons que se não o fizessem perderiam seus empregos.
Também não esquecerei da mulher cheia de rugas, morena, pele curtida pelo sol que perambulava na praia, em uma bela manhã de domingo, pedindo os restos de comida dos turistas.
Não há como não ver, como não pensar, como não perceber o que se faz pelo Brasil. O descaso, a falta de compaixão, de responsabilidade com as pessoas, levam o governo, e seja ele quem for, a fazer sofrer nosso povo. É um histórico de miséria, de labuta diária pelo pão daquele dia, de incertezas quanto ao amanhã, quanto aos próximos minutos, que causam revolta, indignação e uma forte sensação de impotência. Muito passou pela minha mente e pelos meus lábios a pergunta “o que eu posso fazer?”. E em nenhum momento foi acompanhada de um dar de ombros, mas da vontade de encontrar respostas.
É inconcebível passar pelas gentes que sofrem sem ter vontade de mudar o sistema, pois está tudo errado. Mas somente a união de forças, de consciência, de ação pode fazer uma diferença. E essa mudança é uma necessidade urgente para aqueles que esperam os restos dos outros.

OBS. Muito mais poderia ser escrito e descrito sobre o que vimos, mas eu não pararia de escrever. A experiência continua sendo nossa melhor palavra.

6 comentários:

Adriane Queiroz disse...

É lamentável ver tudo isso e sentir que nada podemos fazer sozinhos, sentir também que nosso único modo de tentar mudar essa realidade, que é o voto, não serve de nada. Me vejo como um grão de areia incapaz pronta apenas para sentar e chorar.
Uma amiga que também foi a Maceió fez comentarios da mesma natureza, disse que as pessoas são tão pobres que nem tv eles têm, então para resolver isso, o prefeito colocou em uma praça uma televisão protegida por grades que é ligada somente em horários de novela, aí toda a gente vem ali para assistir. Eu penso meu Deus como pode tamanha manipulação, as pessoas se calam pela ignorância...em fim como eu já havia dito, é lamentável...tantos recursos, tanto espaço e tanta manipulação e corrupção.

Michelle disse...

Eu li um livro chamado As boas mulhers da China, que conta sobre uma jornalista, que diferente de qualquer outra mulher de seu país, não ficava calada, e não tinha medo de correr riscos para realizar sesu ideias.
Essa jornalista consegui um horário numa rádio, onde ela lia cartas de mulheres que enviavam, contando suas vidas sofridas e pobres, da época de Mao Tsé Tung ( acho que é assim que se escreve).
Esse homem destruiu mais do que as relíquias e a História chinesa, ele destruiu vidas, semeou desesperança,e transformou seu país num ligar mudo de medo.
Essa jornalista resolveu depois iniciar uma longa viagem para depois escrever o livro, e conheceu um lugar, totalmente afastado do mundo, no interior, no alto de montanhas chinesas.
Neste lugar, haviam mulheres que tinham que servir seus maridos sexualmente, toda noite feito bichos, mesmo que elas estivessem cansadas do trabalho.. elas tinham vários filhos e tinham , não me lembro bem, o útero caído e dava pra ver, quando elas urinavam, a jornalista prestava atenção em tudo.
Não havia água encanada neste lugar e tudo o que eles comiam durante o ano era pão.
e as mulheres tinham o direito de comer um ovo, no dia que ganhassem os filhos, e para ela esse era um grande reconhecimento.
Mas o que mais espantou a jornalista, foi que, de todos os lugares que ela tinha visitado, naquele local tão pobre e infeliz, aquelas mulheres eram as mais felizes e satisfaitas com sua vida, que ela já havia coinhecido.
Isso por que elas não conheciam o resto, elas nunca haviam descido a montanha...
é cruel, mas talvez um pouco reconfortante, pensar que talvez, por não conhecer nada diferente daquilo, aquelas pessoas não sejam TÃO infelizes quando pensamos....ou não!!
Eu nunca me esqueço, do filme de Olga Benário, uma mulher forte , batalhadora , determinada , corajosa, que não aparce nos livros de História ( que absurdo!!), que lutou pelo nosso país, e no filme há uma passagem onde ela pergunta pra uma moça pobre:
por que vocês não se levantam?? por que não gritam? não se unem para mudar??
E a moça falou: por que você está lutando por uma pátria que nem é sua??
Eu não me lembro o que mais a moça disse, mas o que me chocou foi a finalidade da cena, foi para mostar que brasileiro é muuuuito acomodado, que a Olga morreu por pessoas que nem estavam aí se estavam sofrendo ou não. Continuariam caladas.
Morreu por pessoas que não mereciam!!! Ò.Ó
Outro dia vi uma reportagem sobre mendigos que ganharam casas, de quatro cômodos em Canoas, e estavam reclamando, que era um absurdo, não poder fazer gatos na fiação!!
Como o governo esperava que eles pagassem a luz??
Mas espera aí!! tu ganhou uma casa, pra dormir num lugar protegido do vento, do frio e da chuva, e reclama por que terá que trabalhar um pouquinho para pagar a luz O.O
Eu TINHA pena de mendigos...
E acho que consegui formar uma tese de "por que o negro é pobre até os dias de hoje"
Simples, por que é cultural!!! está nos genes destas pessoas, passado de gerações para geração.
O negro nunca teva nada. Nem sobrenome para estudar sua história eles têm.
Quando libertaram os negros não foi bondade da escrava Isaura. Foi apenas uma ação que convinha ao governo brasileiro.
Libertos foram tratados como animais, pois estavam livres, mas não do preconceito.
E desde a escravidão até a liberdade , eles dormem no chão, ou onde tiver lugar pra dormir.
Por isso que a maioria dos negros têm barracos sujos, e vários filhos...pois acostumaram co essa vida de: pra que me esforçar para ter tudo limpo e bom?? isso cansa!! eu consigo me adaptar a qualquer situação..
Que pena pro Brasil, pra quem quer um país melhor, mas tem gente que vive sua vidinha medíodre sem objetivo nehum, é uma vida vazia, mas muitos são assim...
E que bom, que existem pessoas que ainda tem esperança, determinação para mudar isto, como você ^.^

Pollianny disse...

Realmente a situação do nosso país é deprimente.
Pessoas passando necessidade num país cheio de riquezas, pessoas que não podem se impor, dizer realmente as situações nas quais convivem, por medo de repressões dos "poderosos", governo...
Até quando será que essa situação continuará?!!
Algo deve ser feito....
Atitude, ação......
Todos numa corrente para acabar com essa máfia que domina o País.

Abraços,

Pollianny

Paula Ost disse...

Oi Prof....

Lendo o seu texto me lembrei de muitas coisas que já vi, não em passeios por outros lugares como foi o seu caso, mas sim aqui na nossa cidade. Anos atrás fui com um grupo de amigos em um asilo próximo ao hospital Nossa Senhora das Graças, asilo este sustentado pelo município, eu fiz três formas de bolo e levamos roupas e mais algumas coisas que não lembro Foi triste ver na hora do lanche aquelas mulheres "gordas" e mau educadas servindo micros pedaços de bolo para aqueles vovôs mau cuidados, doentes, sujos, deprecisivos e esquecidos pelas famílias, enquanto elas comiam vorazes, e tentando esconder, a maior parte do bolo.
Eu fiz carinho em uma vovó e ela me fez prometer que eu voltaria, promessa esta que nunca consegui cumprir, pois não tive condições psicológicas de voltar lá. Mas prometi a mim mesma que um dia voltaria lá, alguns anos se passaram e ainda não tive coragem, mas não desisti do meu sonho. Mas não quero voltar para simplesmente dar alimentos pois esta é a caridade mais fácil que se tem, e essa já fazemos pois eu e minha família doamos seis cestas básicas mensalmente para famílias de uma sociedade espírita de Sapucaia, quero dar atenção, com músicas e brincadeiras, não sei quando consiguirei fazer isto, mas é um sonho que tenho=

Robson Luiz disse...

Só consegui ler agora, o texto é muito esclarecedor e chocante.
Realmente o mundo, e não só nosso país, está cada vez mais injusto, desta forma como citado no texto. São os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mas o que deve compensar nestas cenas é reconhecer estas pessoas tem muito mais conscinecia da vida e da felicidade, do que muitos...
Tenhamos consciencia de nossa realidade e façamos cada um a nossa parte, em nosso dia a dia.

Esta é a vida, cabe a nós fazer algo, sem esperar a iniciativa de ninguém...

Ana Paula disse...

O chocante na verdade é ver tanta miséria em toda parte, não vamos longe, em quase todos bairros de Canoas existe, em toda parte, nós que não olhamos para o lado e o mais chocante ainda é que continuamos colocando a culpa no governo ou nas classes mais alta, mas não sabemos que em POA o governo doou varias casas para os papeleiros que viviam na vila chocolatão, uma das mais pobres de POA e os "miseráveis" tem o maior trafico de crake na vila novinha que esta quase toda destruídos, (pois tudo que é de gratis não é cuidado), tenho amigos que vieram de classe muito baixa e que hoje tem uma vida com muito conforto, pois estudaram muito dormiram muito pouco e fizeram pouca festa, pouca bebida nada de roupa "bacana", hoje desfrutam de uma vida muito boa. Claro que me comovo com a miséria das crianças que já nascem com seu destino pronto e sei que nosso ensino publico é terrível, mas tambem acredito que um pouco de caráter muda uma pessoa, e caráter ainda tenho duvida se nascemos ou não com ele, enfim, só sei que não me comovo com homens e mulheres pedintes que só sabem dizer que não tem ajuda e não vão atráz de nada, só acreditam que cai do céu.

Ana Paula Golombieski