quarta-feira, 9 de abril de 2008

A barata

Como dou aulas à noite, chego sempre em casa por volta das vinte e três horas. Chego louca pra ir direto pra cama, porém é inútil dizer que preciso, alías precisamos todos após um dia de trabalho, tomar um banho. Pois, indo em direção ao chuveiro me deparei com uma barata de pernas pro alto no piso do banheiro. Peguei-a e coloquei imediatamento, e com nojo, no vaso sanitário. Ela ficou ali, tentando nadar, se salvar, encontrar uma saída daquele enorme cannyon.
Puxei a descarga sem dó nem piedade. Uma vez e ela continuava lá. Duas vezes e nada da barata ir-se pelo cano, literalmente. Resolvi uma tática mais desesperada: despejei um tanto de desinfetante na barata.
A luta pela sobrevivência é algo nato em todos os seres. Mesmo uma insignificante barata sofreu com o efeito do químico. Agitou as patas, bateu as asas encharcadas e mexeu as antenas. Nem eu agüentava mais aquela agonia. Puxei, numa última tentativa, a descarga e lá se foi a barata para seu túmulo, seu último lugar na terra dos vivos.
Enquanto ela rodopiava até sumir de vez, fiquei meditando na inércia diante das atrocidades que ocorrem na vida. Num momento ou noutro, todos nós nos depararemos com o dia final, com nosso desinfetante e com nossa descarga dessa vida. Alguém, inevitavelmente, será capaz de nos jogar na privada. Poderá ser outra pessoa, uma doença, o tempo. Quem será e como será são irrelevantes se pensarmos no que ficará para trás: uma vida vivida em sua essência mais nobre ou a mediocridade.
Agora, sentada aqui, em frente ao computador, escrevendo sobre o que pensei no funeral da barata, analiso como algo tão banal pode ter despertado pensamentos tão perturbadores. Talvez, isso só confirme o fato de que nada na vida é por acaso, nem a morte estúpida de uma barata. Que não terminemos como ela, descendo pelo esgoto.

Um comentário:

levinainternet disse...

Como diria Rubem Alves, isso é poesia. Quando a gente começa a observar o mundo sob outro ângulo estamos começando a ser poetas. Vide Lispector, Quintana, Gogh, entre tantos outros.

Também é justamente nesse ponto que começam os problemas de enxergar demais.

Levi Nauter