sábado, 28 de junho de 2008

Kafka e o mistério da borboleta

Recentemente, resolvi, até que enfim, fazer uma tatuagem. Para muitos, pode ser a coisa mais simples o “resolver fazer”, mas para mim não foi. Pesquisei muito. Conversei com amigas que fizeram, algumas delas várias, tatuagens. Busquei saber dos cuidados a tomar, da dor que poderia sentir (confesso que esse era meu maior medo), do tatuador que me indicaram. Perguntei sobre tudo, menos sobre o desenho e onde o queria.
Desde os dezesseis anos descobri meu símbolo. Creio que todos nós deveríamos ter um e sei de muitos que os têm. O meu é a borboleta. Pode parecer clichê, afinal muita gente tatua borboletas, mas eu a tenho como minha desde há muito tempo, antes de virar moda, antes que muitas usassem tatuagem de borboleta, eu já tinha pingentes e brincos, presilhas de cabelo e livros com enormes, coloridas e livres borboletas.
A minha “mariposa azul” voa tranqüila em meu pescoço, atrás de minha orelha esquerda. Não posso vê-la sem um espelho, mas sei que está ali. Quanto à dor, creio que a dela, ao deixar o casulo, é muito maior. A tatuagem não doeu, ardeu e pouco. O resultado compensou a apreensão de como seria fazer a primeira tatuagem (digo primeira porque a maioria das pessoas com quem falei me garantiu que ninguém fica só com uma tatuagem).
Na verdade, ela sempre esteve comigo, desde o dia em que me percebi gente, única e inigualável. Após um período conturbado de minha adolescência, saber-se alguém é o pensamento mais libertador e eu o soube de forma mágica.
Ninguém me veio dizer que eu era especial, não, eu não tinha um namorado com a cara do Brad Pitt, eu não era nenhuma modelo de 1,70cm e corpo escultural. Eu era apenas mais uma garota de dezesseis anos, estudante do ensino médio, com notas medianas, algumas até medíocres, nenhum amigo e muitas leituras.
Ler me possibilitou essa liberdade. Estava em meu quarto, num sábado à noite, como sempre lendo. Metamorfose, de Franz Kafka. O homem que acorda num belo dia e se descobre uma barata. Anos depois, meu professor de teoria literária da faculdade de Letras me corrigiria dizendo que não se tratava de uma barata, mas de um inseto inominável. Azar, para mim era e sempre será uma barata.
Eu, particularmente, tenho horror a baratas. Pegajosas, sujas e com aquelas patas peludas. Mas foi a barata de Kafka que me apontou um caminho possível, o da transformação. Naquele dia decidi não ser uma parasita do sistema, não me deixar levar pelo que a maioria diz, pensa ou faz. Naquele dia, decidi não ser ignorada como “mais uma”, deixada de lado, medíocre. Decidi nunca, mas nunca mesmo ser uma barata. O que eu queria mesmo era voar.
A borboleta, inseto amistoso ao olhar humano, é símbolo de beleza, de liberdade. Para mim, representa a superação. Já estive em um casulo. Quando se está lá há duas opções: permanecer no lugar comum, fechado e protegido, ou fazer muita força, arrebentar as paredes e voar para o desconhecido. A vida da borboleta é curta, de um dia a uma semana. Nesse período, ela migra, procria e morre. Mas vale a pena. O espetáculo de sua beleza e a herança que deixa durará por muito mais tempo.
Sair do casulo tem um preço. Superação é muito mais do que só vencer, é vencer mantendo a dignidade e a honra inalteradas. É transpor obstáculos dos mais variados. Um após o outro. Deixei pra trás o meu casulo em uma idade em que a maioria só pensa em namorar e se divertir. Em que os grupos se formam, em que os adolescentes buscam sua identidade e identificação.
Eu preferi ser borboleta. Continuei lendo, continuei buscando quem sou e quem decidi ser, mesmo que o sistema me encarasse para me dizer que sou a massa, nada mais.
Mas a decisão é feita todos os dias. E continuo me decidindo. Permanentemente rompo as barreiras, todos os dias digo não ao casulo, num processo sem fim escolho ser quem sou.

2 comentários:

Laura disse...

Oi Ane!

Que beleza! Adorei o texto que escreveste. Realmente temos muitas coisas em comum.
Fiquei me perguntando... quando será que ela fará outra? hehehehehehe
Te garanto que não irá demorar.
beijão

cmhochmuller disse...

Adorei.
Assim como tu, já refleti bastante sobre as borboletas e... sim, elas viraram clichê, mas a moda passa e a simbologia fica.
Longa vida a esta que resiste ao casulo, espalhando beleza e leveza! ;)
Um beijão!