quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Entre neuras e neuróticos, a libertação

Lendo o livro Doidas e Santas da Martha Medeiros, me deparei com uma idéia absurda: parar de pensar. Em uma de suas crônicas, escrita com a maestria de sempre, Martha me sai com essa. Imaginar dois dias sem pensar em absolutamente nada. Ficar longe dos problemas, das decisões, da pressão. Para mim, isso é neura. Neura, inclusive, é a palavra que mais venho usando em meu dia a dia. Hoje mesmo saí com essa de estar cheia de neuras.
Na verdade, eu, e sei que muita gente também, nem sabia direito o que significa a palavra neura, ou neurastênico, ou neurose. Então, como boa professora, aquela que dá o exemplo antes de exigir as ações de seus alunos, fui até o velho Larousse ampliar meu vocabulário, pelo menos para entender o que digo.
Descobri que neura é o que tem o neurastênico, que neurastênico é o mau humorado, ranzinza, irritadinho e que neurose é uma tendência anormal para sentimentos de tristeza e amargura. E seguindo a antiga e certa citação bíblica “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, eu me libertei. Não tenho neuras, como sempre apregôo e muito menos sou neurastênica ou neurótica.
Tenho problemas com meu eu (quem não os tem), mas amo a vida. Há dias em que o cinza é a cor da vez, mas normalmente, da manhã à noite, só vislumbro o arco íris. Nem sempre sei o que fazer, não sei que decisões tomar, não sei por onde começar, muito menos aonde vou parar. Mas vivo na curiosidade de uma criança que pergunta “e agora? O que acontece?”.
Nossa geração anda usando palavras que não conhece, se apropriando de termos e expressões nem sempre com o sentido exato do que querem realmente dizer. É claro que existem os neurastênicos, a neurose é uma doença, mas na maior parte do tempo tudo não passa de um modismo. Modismo das neuras e das nóias (outra palavrinha inexplicável). E nessa onda ficamos tristes, esquecemos de cantar (nem que seja no chuveiro), não vemos as flores, não amamos mais, não cheiramos mais, não vivemos mais.
Então, uma resolução (e nem chegou dezembro): não vou mais dizer por aí que tenho neuras. Tenho momentos de insatisfação ou estresse, mas não neuras. Porque não sou triste, não sou ranzinza (só na TPM, mas isso é aceitável), não sou mau humorada e muito menos amarga. Eu sou feliz, dessa felicidade real, não ilusória, idealizada nos contos de fadas. Sou feliz com minhas realizações e decepções, com minhas alegrias e frustrações, com meus amores e desafetos, com dias de sol e chuva. Sou feliz porque estou viva e a vida é arte pura.
Imagine, ficar dois dias sem pensar. E acabar perdendo a oportunidade única da libertação. Só mesmo em uma crônica da Martha Medeiros.

4 comentários:

Anônimo disse...

Ane:

Obrigado pelas palavras no meu blog.

As tuas três últimas postagens, parecem-me, demonstram uma maturidade admirável. A opção por estar e viver intensamente é a melhor escolha – sempre. Essa idéia de olhar a volta, as plantas, a comunidade, mastigar mais devagar, entre outras tarefas, penso que é o necessário justamente para se sair bem num processo seletivo. A academia me incomoda justamente porque não quer gente viva; não quer quem diz sem usar muleta (referência bibliográfica). Em geral, os acadêmicos não sabem pensar com autonomia, precisam escorar-se n'alguém. Vivamos!!!

Levi Nauter

Ane de Mira disse...

É a urgência da vida, gritando como louca para eu vivê-la.
Abraços.

Juliana disse...

Belo texto Ane,tb sou fã da Martha..
bjos e suceso p ti.

ursula disse...

Oi, Ane!
Muito legal o teu blog!
Não cheguei a ler o livro Doidas e Santas da Martha Medeiros, mas a idéia de parar de pensar me lembrou a prática da meditação. Tu já praticaste? Na realidade é um exercício de mente focada em algo (ex. na respiração). Porque realmente, parar de pensar não sei se é possível. Mas acalmar os pensamentos com a meditação sei que traz vários benefícios. E que ótimo que tu és feliz pelo simples fato de estar viva!! Parabéns, é assim que temos que viver a vida!! Parabéns, pelo blog. Ah, e parabéns pelo dia do professor que está próximo. Beijos, Úrsula.