sábado, 4 de outubro de 2008

No metrô

Desde que comecei a trabalhar na capital passei a utilizar o metrô. Quanto a isso, não há nada de surpreendente, afinal é um meio seguro e barato para quem não mora em Porto Alegre, mas em uma cidade vizinha, poder chegar lá em menos de trinta minutos. Tudo bem, se meu horário de ida não fosse às 6h da manhã.
Três vezes por semana embarco numa tormenta. É gente que não acaba mais. Há dias que penso que não conseguirei entrar no vagão. A maioria, esmagadora, é de homens. Já deu para imaginar o suplício. Dia de chuva, com as janelas fechadas, é quente, abafado e cheira mal. Vamos ser realistas. Não estou fazendo nenhuma injustiça. Há pessoas e pessoas. Tem gente que ainda não conhece o sabonete.
São oito estações até eu desembarcar onde preciso. Fico em pé esse tempo todo e com meus 1,56m de altura meus braços doem muito. Ah, ainda há a bolsa. Uma enorme, desajeitada e pesada bolsa que levo cheia de livros, dicionários, canetas. Material de trabalho.
Fico tão esmagada, e sumida, no meio daquele povo todo que só me resta abaixar a cabeça para ver se ao menos a cor de minhas sapatilhas me alegram. Sapatilhas ou tênis, sapatos de salto alto nem pensar.
O que para mim é um tempo enorme, cansativo e agonizante, para outros é pura festa. Sim, há os que amam andar de metrô. Metrô é novidade, é mudança na rotina, é oportunidade de balançar sem sair do lugar. Dia de dar risada e conhecer rostos diferentes. Dia de sair de casa.
Claro, só posso estar falando das crianças. Mesmo tão cedo já vi várias zanzando pelo corredor apinhado. Elas dão muita risada. Estão na maior curtição. Ficam olhando de soslaio para as mães ou avós, ou ambas, para ver se podem continuar a aventura.
Ontem mesmo foi um menino loirinho, de uns sete anos. Ele estava em outra dimensão. Enquanto os adultos bocejavam, dormiam ou amargavam, ele ria. Até que me deu uma certa inveja. Queria ter sete anos, só brincar, estudar coisinhas básicas e curtir o dia de andar de trem.
Olhei tanto para ele brincando que acabei até por esquecer, por alguns minutos, de onde estava, da incômoda bolsa, do aperto, do calor. Na alegria dele, encontrei a minha. Na brincadeira dele, deixei a chatice e passei a ouvir música. Risada e leveza. Mesmo numa manhã de sexta-feira, num trem superlotado e quente, dá para encontrar poesia, é só ficar atento para os superiores seres que transitam alegremente entre nós: as crianças.

4 comentários:

Carina Tondo disse...

Que lindo texto!

A alegria de viver está nas coisas mais simples, até na alegria de uma criança...

OBS.: Esse texto me fez lembrar as viagens de metrô às 6hrs da tarde no verão... Não desejo isso nem ao meu pior inimigo.

hehehe...
bjos!!

cmhochmuller disse...

Querida Ane,
passei pelo menos dois longos anos viajando de trem. Quando embarcava em São Leopoldo, tudo bem, sempre seguia sentada, lendo muito. Já em Canoas, nossa, que drama, que função. E chegava em POA e ainda pegava um outro ônibus. Ida e volta, todos os dias, exceto final de semana.
Mas sempre o que me salvou de não criar uma úlcera foi a capacidade de me admirar com qualquer coisa banal do cotidiano. O exercício da capacidade de ver no comum, ao mesmo tempo, o extraordinário.
De certo modo, isso sempre serviu para me lembrar de que Deus está em todos os lugares. ;)
Um beijo e muita força!

jane macedo disse...

Oi, adorei seu blog (indicação da Juliana). Tem uma época que eu sempre voltava para a casa de ônibus no final da tarde. Eu fazia um curso na área da estética e por orientação de uma professora sempre fazia o exercício de olhar para as pessoas e procurar algo de bonito nelas, qualquer coisa, podia ser os olhos, o cabelo, a boca... e por incrível que pareça aprendi que ninguém é totalmente feio (exterior), sempre temos alguma coisa bonita. Sem falar na alma é claro. Então acho que até andar em ônibus lotado, levar pisões no pé, sentir cheiros desagradáveis podem ter aspectos positivos que nos levam a refletir sobre fatos da vida. Um abraço. Jane.

Jane disse...

Que bom que você gostou, é claro que em matéria de escrever não tem comparação com você e a Ju que são da área, sou uma amadora, mas acredito que com o tempo dá para dar uma melhoradinha. A cuca realmente é deliciosa, eu adoro cozinhar e vou colocar outras receitinhas de vez em quando. Vamos continuar nos visitando... um abraço.