terça-feira, 16 de dezembro de 2008

De cadernos fechados

Finalizados os conselhos de classe, aprovados os nem tão aprovados assim, mas reprovados os bem reprovados, vou fechando os cadernos do ano letivo de 2008.
Nesse momento, costumo fazer um balanço de minha prática, relembrar os erros para tentar corrigi-los no próximo ciclo, olhar de forma geral para meu trabalho e tentar responder aonde cheguei e aonde ajudei outros a chegarem.
Não é fácil, como me ensinou meu primeiro coordenador, “ter um ideal e ao mesmo tempo estar com os pés no chão”. Quando se sai da faculdade e se cai na primeira escola, mais precisamente na primeira sala de aula, as utopias são gigantescas. O que se quer, no mínimo, é salvar o mundo. Nessa época, a educação parece a chave para abrir todas as portas, a solução dos problemas de todo o país.
Depois de alguns anos, baseados na mesma grade curricular, vendo os mesmos fracassos, as mesmas falhas, os mesmos questionamentos, percebemos que a educação é um caminho cheio de muitas pedras. Mas não há desesperança nessa afirmação.
Já me sentindo “a professora”, posso afirmar que a utopia pela beleza da idéia já não tem vez. Procurei sempre seguir um dos primeiros conselhos recebidos e tenho conseguido, não sem frustrações vez ou outra, ter ideais, mas também estar atenta à realidade de meu entorno.
Creio cada vez mais no que faço, no que trabalho dia após dia. É na rotina, no dizer e no propor que posso, sim, realizar alguma mudança. É ao perguntar, instigar e esperar respostas e sobre elas lançar novas provocações que contribuo para que mais pessoas saibam que são capazes de pensar, de conhecer, de mais buscar.
Meus alunos não precisam ser A em orações subordinadas ou no tempo pluscuamperfecto em espanhol. Mas precisam, sim, olhar o mundo e compreendê-lo. Precisam saber de quais ferramentas necessitam, quais conhecimentos devem buscar para competirem no mercado de trabalho, para onde devem olhar para não se perderem.
Não estou com isso menosprezando os conhecimentos, as teorias, a disciplina, bem pelo contrário. Aposto nos estudos da dinâmica da língua e de suas inúmeras faces na comunicação. Mas se meu aluno não souber ouvir o discurso do mundo e decidir, conscientemente, o que fazer perante ele, não valeram de nada os vários textos, os vários exercícios, as montanhas de regras.
Hoje, em uma das escolas em que trabalho, pude abraçar alunos felizes com suas aprovações. Muitos deles só as receberam porque já haviam passado em vestibulares disputados de Porto Alegre. O Conselho achou coerente deixá-los seguirem seus caminhos. Porque se fizemos um bom trabalho, eles saberão onde buscar mais, porque fomos capazes de lhes apresentar à fonte, cabendo a eles dela beberem.
Portanto, não há, em mim, nenhuma sensação de fracasso, de culpa ou frustração. Fiz o meu melhor. Contribuí com meus conhecimentos, com minha competência profissional, com minha dedicação para que eles possam fazer suas escolhas bem feitas. Apostando nisso é que renovo meus ideais para o próximo ano, para as novas turmas, para meus novos grupos de alunos. Renovando e recriando idéias, apostas, saberes. Creio cada vez mais que nisso se resume minha prática.

Um comentário:

Sérgio disse...

parabéns pelo belíssimo texto, ane.

muito obrigado tb pela generosidade em seguir meu blog. =)

big abraço