quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um lugar para chorar

Sempre que chega essa época do ano fico assim: angustiada, com um não sei quê me devorando por dentro. Talvez seja a experiência de muitos finais de ano cheios demais de compromissos. Só pensar em tudo o que tenho para dar conta até antes do Natal já me deixa zonza. E não sou de exagerar, é que as exigências aumentam consideravelmente nessa época.
Nas escolas, entramos na reta final do ano letivo. São provas, conteúdos, mais provas, fechamentos, conselhos de classe, entrega de avaliações, cadernos de chamada para entregar, reuniões, auto-avaliações, mais reuniões...
Na família, são os encontros de Natal (esse ano será aqui em casa, o que me deixa feliz e assustada), reuniões de amigo-secreto, chegada de parentes de outros estados e que a gente precisa visitar...
Com os amigos a mesma loucura. Como tanto nessa época que engordo todos os quilos que perdi durante o ano, são jantarzinhos, barzinhos, churrasquinhos que não acabam mais...
Ainda há a conclusão de minha pós-graduação que está me deixando maluca, porque parece que nunca termina, sempre tem algo no TCC para arrumar...
E ainda tem a igreja...
Sim, eu vou à igreja. Mas lá é diferente. Lá é meu lugar de respirar, de sentar no colo do Pai, de me sentir à vontade para chorar minhas angústias, meus medos de fracassar, de não conseguir, de ser pequena demais. Quando entro no santuário, só sei ser filha, esqueço o ser professora, esposa, amiga, parente; lá só olho para o Pai e me entrego aos pedaços para Ele consertar, afinal Ele é perito em pegar cacos de barro e deixar o vaso novinho.
Talvez, a maioria das pessoas ache que a religiosidade ou espiritualidade (dê-se o nome que quiser) não depende de se ir a um lugar específico e não depende mesmo, pois o que cremos deve ser vivido como parte de nós, mas eu não abro mão de sair de casa e ir com meu marido, como família, buscar nosso alento, nossa paz, nossa força.
São duas horas de momentos que servem por muito mais do que o tempo pode medir. Lá posso cantar e não estar nem aí se sou afinada ou não, posso erguer as mãos e nem preciso cuidar se alguém me olha, o que pensa, o que vê, porque o que importa lá é agradecer a Deus o que tenho recebido, não o material, mas a contínua graça de seu amor que zela por mim, que me recebe como filha, que me sustenta em meu dia a dia, que me abraça como sou, sem máscaras, sem precisar que eu demonstre força ou garra.
E o que aprendo lá, esse confiar sem condição, me conduz a uma vida não sem sofrimentos, mas a uma vida de fé, de certezas além do que o olho pode ver ou os ouvidos ouvirem. A uma fé que me permite chorar, ter angústias, mas para além delas saber que são passageiras, que fazem parte do ser humano que sou, que lágrimas fazem parte de estar aqui, na terra, mas que um dia, ah um dia...
Em momentos como o de hoje, em que chego em casa um pouco acabada, literalmente me arrastando, com a alma dolorida, um tanto fustigada pelos compromissos do cotidiano, pelas exigências, pelo quebrantamento de saber que meu papai está doente, por me sentir sozinha, faço de meu lar a minha igreja. Porque sei que da mesma forma meu Pai me abraça e me acalenta.
E como não dá para esperar até domingo, deixo as lágrimas escorrerem hoje mesmo, na certeza inexorável de serem enxugadas.

Gracias, mi Papá, por sostenerme en tus brazos de amor. Te quiero muchísimo.
Tu hija Ane.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ane,
O bom é sabermos que temos um Pai e que podemos - a qualquer momento e em qualquer lugar - contar com a Sua Graça.

Levi Nauter

Caren diLima disse...

Ane! É verdade... É indizível estar na presença do Pai (em qualquer hora, em qualquer lugar), sem máscaras, despojados de qualquer reserva, sem precisar "explicar" porque nos sentimos como nos sentimos, ou porque agimos como agimos. Sem júri e sem juiz. É essa Maravilhosa Graça, maior que a vida!! Esse Amor Incondicional, que nos leva além... Não existe outro lugar onde eu queira estar!!

Um abração, e vamos juntos nessa (É a vida, é a vida!) ~ "... As dores do mundo, já posso suportar. As guerras e aflições, já posso suportar. Pela força que em mim está, já posso suportar, já posso suportar! O Maior dos espíritos habita em mim, eu sou a casa que Ele escolheu para morar, por causa disso, já posso suportar." (P LUO)

Carinho, Caren diLima