quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Quando a viagem termina

Os monges em Laos
É bom viajar, na verdade, é ótimo viajar. Sair da rotina, conhecer novas culturas, sentir outros sabores, ver outras gentes. Mas nem sempre estamos prontos para imergirmos em outras formas de pensar e agir no mundo. Viajar supõe estar aberto a tudo o que se vai experimentar sem que nossas ideias e concepções interfiram em nosso julgamento, porém essa é uma tarefa árdua que exige disciplina intelectual ao longo de algumas viagens, pois ninguém aprende a viajar sem viajar várias e várias vezes.
 Ao fim de uma viagem mais longa, temos a sensação de não termos saído do lugar. Todas as descobertas recentes levam um tempo para acomodarem-se em nossa mente e passarem a fazer parte de nós. Quando voltamos para casa, é necessário um processo de auto-convencimento de que, sim, nós estivemos em todos aqueles lugares que estão em nossa memória da câmera fotográfica; que, sim, somos realmente nós que pisamos aquelas terras, que saboreamos aquelas comidas, que estivemos com aquelas pessoas.
Quando voltamos, precisamos rever nosso trajeto desde o momento em que começamos a planejar a viagem, inclusive, para compreendermos se as motivações permanecem as mesmas e se as expectativas que tínhamos foram alcançadas ou até mesmo superadas.
Criança da tribo catcat em Sapa, Vietnã
Desde os 18 anos eu viajo. Fiz minha primeira trip para Israel e Egito com três dias em Madrid. Eu fui sozinha, sem nenhum familiar. Eu falava um inglês melhor do que hoje, eu tinha vontades e maturidade diferentes. Eu nem sabia o que ia fazer da vida em relação à profissão ou qualquer outra coisa, mas quando voltei essas questões estavam respondidas e uma certeza eu tinha e nunca mais deixei de ter: eu ia viajar muito.
Um tempo se passou, fiz minha faculdade, iniciei minha carreira e casei, casei-me com um homem que havia prometido a si mesmo que viajaria muito. E juntamos nossas vontades e temos viajado todos os anos, cada vez mais longe, cada vez por mais tempo. Dessa vez, fomos a alguns países do sudeste da Ásia, com nosso inglês básico, sem agência, sem ninguém, a não ser o fruto de nossas pesquisas e muita dedicação em organizar desde os voos, estadia, transporte nos locais, como se comportar, o que esperar.
Tem gente que nos considera um tanto loucos, mas estão errados. Somos totalmente loucos, um pelo outro, e cada um pelo mundo e todo o conhecimento que ele tem para nos transmitir. Somos doidos, cada um pelos seus próprios motivos, para descobrir o que há por trás de outras moradias que não a nossa, outras culturas, que não a nossa, outros olhares, que não os nossos. Somos muito malucos mesmo pela vontade de mudança, pela desacomodação, pela insônia criativa das madrugadas que nos ajuda a pensar e perceber que não somos nem o centro do universo, muito menos da comunidade onde vivemos.
As montanhas de Sapa
Escrevo esse texto durante o voo de volta para casa. Serão 11 horas de voo, então tenho muito tempo para ler, pensar, escrever e escrever sempre me ajuda a organizar as ideias e a analisar cada uma delas. Então, não há como voltar de uma viagem da mesma forma quando do embarque para o inesperado, porque o que vivemos é só nosso, é nossa experiência e nossa mente passará a perceber tudo ao nosso redor de um outro jeito, mesmo que não queiramos.
Durante esse tempo em que estivemos fora, aprendi que a cultura tem um poder enorme sobre a vida das pessoas. Somos realmente frutos de nosso meio. Somos criação do pensamento dominante de nossa sociedade, e só quando nos empoderamos de uma consciência profunda sobre nós mesmos é que podemos romper com o que consideramos não nos fazer tão bem quanto pensávamos até então.
Senti falta de objetos banais, como ter o auxílio de uma faca para as refeições, pois só nos ofereciam colher, às vezes garfo. Senti falta de sal, e passei a odiar a pimenta. Não raras vezes, desejei um vaso sanitário, pois na maior parte dos banheiros que precisei usar só havia um buraco no chão. Também passei a dar preferência à comida industrializada em muitos locais, era a única garantia de que não passaria mal, ou tão mal, depois de comer e bebi muito refrigerante pelo mesmo motivo.
Mercado Flutuante, Tailândia
Isso tudo, principalmente no início, porque houve momentos em que poder tomar um banho frio já foi considerado um luxo, e poder contar com um sorriso de compreensão de uma pessoa acostumada com a privação me fez sentir uma completa idiota ocidental. No começo, tudo era novidade e as diferenças foram recebidas como a constatação de que o que havíamos lido a respeito era realmente verdadeiro. Com os dias passando, imergir nas comunidades, caminhar entre as gentes, tentar se fazer entender, comer da sua comida e ficar feliz pelo prato quente de sopa de macarrão de arroz e frango entre vários tipos de folhas desconhecidas era considerado um privilégio.
Ficávamos conversando sobre o podermos viajar, o termos a oportunidade que a maioria das pessoas de nossas relações jamais terá, a bênção que era ver o que vimos e experimentar o que experimentamos, mesmo quando não haviam outras alternativas. Sim, somos privilegiados, mas não nos sentimos melhores do que ninguém por isso, nos sentimos pequenos porque estamos podendo vivenciar outras realidades e perceber o quanto somos egoístas em nossos desejos diários, o quanto somos mesquinhos em não dividirmos nossos sentimentos, muitas vezes com receio do que os outros irão pensar.
Em uma viagem como a que fizemos, receios devem ser todos deixados de lado, porque a gente tem que meter a cara, tem que perguntar, tem que fazer muita mímica mesmo sendo ridícula, tem que desenhar, literalmente, o que desejamos. Quando fazemos esse tipo de viagem, classificada como exótica nas agências especializadas, temos que estar abertos a todas as possibilidades de comunicação existentes ou corremos o risco de ficarmos doentes, com fome e sem encontrarmos nossas hospedagens.
As ruas de Hanoi, Vietnã
O que os quatro países do sudeste da Ásia nos ensinaram talvez nem consiga ser externado por completo, pois cada um de nós leva consigo suas impressões e aprendizagens de acordo com sua visão e bagagem de mundo, porém há lições preciosas que podem ser nominadas e a tolerância é a maior delas. Tolerar aos outros e suas diferenças, tolerar as diversidades de nosso planeta, tolerar ideias e formas de ver o mundo diferentes das nossas (mas nem por isso erradas), tolerar os infortúnios quando esses não têm solução, tolerar as necessidades alheias (mesmo que incompreensíveis a nós), tolerar os nossos próprios limites e sabermos parar quando chega a hora de sentar, tirar os calçados e aliviar o peso dos ombros.
Quando a viagem termina, terminam também muitas lembranças recentes, muitas sensações irão afundar na realidade do cotidiano a ser enfrentado por cada um. Por isso, as fotos e os relatos existem, para mantermos a memória do que realmente vale a pena ser lembrado, para jamais deixar de ter sido aprendido e podermos olhar esses dias com a sensação pura de que valeu a pena, valeu cada calo, cada dor no corpo, cada chuva fria, cada nascer e pôr do sol assistidos, cada voz ouvida, cada pimenta detestada, cada banheiro precário... Porque “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, afirmou o luso poeta Fernando Pessoa e queira nós termos sempre a grandeza de compreendermos a amplidão das gentes e todas as possibilidades que temos de sermos melhores agentes nesse mundão de Deus.


3 comentários:

charlene almeida disse...

Gostei do texto e gosto mais ainda da ideia de ter por perto alguém com o coração e os olhos bem abertos para enxergar o mundo de uma forma real, necessária, justa... Beijos.
Estou te seguindo agora.

Leitores do Mundo disse...

Qual será o próximo destino?Quero ler novos relatos,isso é inspiração pura para nossa existência e nossa profissão.Parabéns ao casal pela coragem e empreendimento!

Leitores do Mundo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.